Comentários em Real Player.
acesse
 
Confira aqui os dias e horários do Consumidor-RS.
 
 
Deixe aqui sua reclamação ou dúvida quanto a seus direitos como consumidor. Nossa assessoria jurídica responderá o mais breve possível.
 
   
Este espaço é seu: deixe suas sugestões, opiniões e recados!  
  Receba por e-mail as principais notícias e novidades da semana!  
assine
  Pesquise no nosso banco de notícias
 
  pesquise  


Comentarista: Marilice Costi
Abraçar o outro é acolher a sua história

Estamos no século XXI e o ser humano, com toda a cultura médica, ainda tem comportamento duro, temeroso, não olha o outro como a si mesmo. Quando você abraça alguém, você abraça toda a sua história. Talvez por isto que tantas pessoas não abracem as outras. Abraçar é acolher e é preciso ter espaço dentro de si para ceder ao outro.
Procurei na internet a palavra acolhimento. Lá está o valor que ela expressa. Como algo tão importante vem sendo ensinado aos médicos, aos enfermeiros, aos auxiliares de enfermagem, aos terapeutas?

Em diversos ambientes de saúde, ainda há onipotência. Como se os outros – os que precisam – tivessem todo o tempo do mundo, descompromissados. Agendado o horário, as pessoas comparecem, mas o profissional que vai atender, não. Quando os funcionários já não têm mais o que dizer, até demonstram na expressão corporal que estão com medo de quem está ali, pequeno, precisando de ajuda. Podem até estar certos ao andar como se fizessem marcha-ré, ao falar sem olhar nos olhos. Obrigados a cumprir ordens, dizem com os lábios o que o corpo nega. Os funcionários-barreira, ouvidores sem função, são os que dão a retaguarda e, só por isto, devem ficar estressados por não estarem sendo éticos. Ir contra princípios – quando se têm princípios – é negar a própria essência. Isto faz adoecer e perder a relação solidária. Também é possível que eles, ao se colocarem no lugar do outro, neguem a si a expressão da sua afetividade. É preciso acolhê-los para que possam expressar as próprias dores, as próprias loucuras, porque enlouquecer um pouco é humano. O risco é estar no ápice da dor.

No artigo O acolhimento e os processos de trabalho em saúde: o caso de Betim, Minas Gerais, Brasil, de vários autores, qualificar a relação trabalhador-usuário, que deve dar-se por parâmetros humanitários, de solidariedade e cidadania, é um dos princípios do acolhimento; preparar-se na própria humanidade, sensibilidade. Quem não consegue se colocar no lugar do outro, não pode trabalhar na área da saúde.

No momento, existe um centramento no usuário, no consumidor de serviços. Mas não se pode esquecer que as pessoas que cuidam e tratam de indivíduos com problemas mentais – e aqui incluo todos os profissionais da área – precisam criar uma carapaça ou aprender a lidar com suas emoções para não sofrer. O medo de sofrer faz criar proteções invisíveis, mas concretas. Pode ser que tenhamos pena de quem embruteceu, se tivermos condições de entender. Quem nunca sofreu na vida? Tive alunos que ao visitarem os postos de saúde em vilas, no contato direto com a miséria, é que passaram a valorizar sua própria vida. Tendo contato com quem não enxerga é que puderam compreender as dificuldades urbanas e domésticas de tais pessoas especiais. Com a doença mental é a mesma coisa. Quem tem doentes na família, compreende melhor o sofrimento dos cuidadores.

As neurociências vêm comprovando, em diversas pesquisas, o quanto o cérebro e a mente estão interligadas e como os estímulos recebidos são responsáveis pelo comportamento e pela química neuronal. Será que o ser humano, se não vivencia o mesmo sofrimento, não é capaz de compreender? Ou de tanto vivenciar, não dá mais importância? Tanto é vista a violência na televisão que isto passa a ser banal. Perdem-se referências. O que seria das pessoas se elas tivessem que passar por todos os tipos de sofrimento humano para compreendê-los? Não haveria como processar. Por isso é preciso que aprenda a se defender sem perder a compaixão. O que faz com que sejamos sensíveis ao sofrimento alheio? A vida solidária desde pequeno? O estudo? A espiritualidade? Se o ser humano vivesse isolado, teria capacidade de entender os outros? O ser humano é humano porque se espelha nos que o rodeiam. “Amar ao próximo como a ti mesmo”. Mas se não me amo, como amar o outro?

É sentindo como dói uma canelada que se avalia a dor de um jogador de futebol, é sofrendo com a dor de um filho que se compreende as dificuldades pelas quais nossos pais passaram. A base do ser humano é a solidariedade porque a nós foi dada a capacidade de dar e receber. Somos parte de um todo humano. Mas como se sentir pertencente a um grupo que nos engana, nos rouba, nos abandona? Os sentimentos que estamos tendo com a situação política estão sendo projetados nas nossas relações mais próximas?

Não se pode ter medo de tudo. O pior é ter medo de quem está precisando de ajuda e lhe negar acolhimento. Mas como sentir-se inteiro no meio dos que são coniventes com tanta desumanidade? Assaltantes, presos que controlam presídios, traficantes, corruptos, corruptores; os que não têm palavra, ética. Como pertencer à humanidade que aceita uma criança mendigando na madrugada sem ter vergonha? Como sentir-se humano no meio de uma população que parece ter perdido a rota, o amor-próprio? Como aceitar em si a fragilidade, a fraqueza, a doença, a miséria, o luto, a perda, a mágoa, a raiva, o desejo de vingança, a vontade de morrer, a solidão? Na vida, todos possuem máscaras. A cada lugar, uma nova camada é colocada na face. E aquele que mostra a real face é o que mais sofre, porque a inveja do que tem coragem de ser é real. Quem é verdadeiro está dando a cara para bater.

Será que os profissionais da saúde se dão conta de que os familiares precisam estar nutridos para poder alimentar os seus? Como os pássaros, o alimento passa pela boca da mãe e depois vai para os filhos. A ave sem comida deixa o filhote morrer, abandona os ovos. Familiares deveriam ser tidos como parceiros do processo, mas parecem ser meros transportadores de pacientes aos serviços de atendimento e, portanto, como transporte, têm outra importância: passam de usuários a prestadores de serviço, além de pagantes de remédios, exames extras e tratamento para si mesmo, porque adoece também.

Para a maioria dos profissionais, o foco todo está no paciente e toda a família deve se ajustar a ele, tendo que ficar sem sonhos, sem direitos, cumprindo determinações – com exceções. Uma psiquiatra disse: você não é obrigada a morar com seu filho, você tem o direito de pensar em si mesma, de não querer. Ela foi a primeira que me percebeu. Moradia é outra história. Atualmente, todos querem pensar só em si mesmos. Na mídia, vende-se para criar o consumidor individualista, aquele que não divide com ninguém, que não compartilha nem a televisão, nem o fogão, nem os espaços de vida. Se uma TV era para todos, agora cada um quer a sua, e assim com os telefones, os banheiros, os computadores. Isto faz as empresas continuarem produzindo mais, vendendo mais.

Para partilhar, precisamos ser solidários de um lado, mas responsáveis e respeitosos do outro. Não há como só receber. A troca ou a partilha exige dupla relação. O difícil é partilhar com quem é especial, que não entende limites, solicita e exige atenção o tempo todo, dificulta relacionamentos, complica a vida dos demais. Um portador de necessidades especiais precisa de mais cuidados do que outra pessoa, e é muito difícil dosar porque, na sua doença, ele não sabe medir. Se os familiares dão limites, culpam-se; se não satisfazem suas necessidades doentias, culpam-se; se não conseguem dar-lhe o tempo que eles precisam, culpam-se. Sentimentos de culpa não ajudam em nada, mas podem ajudar a pensar. A culpa tem a ver também com as relações sócio-culturais, mas atrás da culpa está a empatia, o sofrimento do outro que nos tocou internamente. Cuidado: pode ser que esteja ocorrendo um bloqueio do grupo familiar através do membro mais frágil. Os familiares também precisam ter espaço para viver e se divertir.

Os CAPS municipais, criados nos governos da década de 90, ainda existem. Sinal de que o caminho estava certo. Mas e o Projeto Insere, com o objetivo de integrar pacientes na sociedade? Remédios: não há mais tantas filas, mas também não há para distribuir. Ou a comunidade empobreceu e necessita mais que tempos atrás. Mesmo assim, a rede de saúde mental vem tentando cumprir os princípios. Há muitas pessoas que acolhem, escutam, dão colo e apontam outro norte. E se alguém não está sendo atendido assim, há que abrir a boca, denunciar, buscar apoio de outro profissional. Não há por que agüentar novas dores desnecessárias. Para cuidar do ser humano é preciso ter características especiais. É preciso ser capaz de abraçar.

Revisão e edição: Renata Appel


Escritora, Arteterapeuta, Mestre em Arquitetura, Consultora. Site: www.sanaarquitetura.arq.br  
e-mail do autor: marilice.costi@sanaarquitetura.arq.br
 
 

Nossos comentaristas:
1. Adeli Sell
2. Aldemir Spohr
3. Alexandra Periscinoto
4. Alexandre Appel
5. Alexandre Diamante
6. Alvaro Trevisioli
7. Ana Cláudia Guimarães e Souza de Miguel
8. Ana Paula Simone de Oliveira Souza
9. Ana Rique
10. Andrea Cristina Sakata
11. Andrea Mente
12. Antonio Luís Guimarães de Álvares Otero
13. Augusto Paes Barreto
14. Benny Spiewak
15. Carlos Alberto Pescada
16. Carlos Eduardo Dantas
17. Carolina Memran Schreier
18. Chan Wook Min
19. Cláudia Domingues
20. Claudia Yamana
21. Cláudio Boriola
22. Conceição Clemente
23. Dalmir Sant Anna
24. Daniel Maranhão
25. Daniella Augusto Montagnolli Thomaz
26. Diego Lopes
27. Domingos Sávio Zainaghi
28. Eduardo de Oliveira Gouvêa
29. Emerson Kapaz
30. Eric Jean Peleias
31. Eric Slywitch
32. Eunice Casagrande
33. Fabiano Carvalho
34. Fábio Alexandre Lunardini
35. Fábio Lopes
36. Fernando Quércia
37. Gabriel Aidar Abouchar
38. Gilson Rasador
39. Giselle Ferreira de Araújo
40. Gislaine Barbosa de Toledo
41. Greyce Lousana
42. Grijalbo Fernandes Coutinho
43. Guilherme Iglesias
44. Hugo Cavalcanti Melo Filho
45. Istvan Kasznar
46. Joandre Antonio Ferraz
47. João Felipe Consentino
48. Jordão de Gouveia
49. José Arthur Assunção
50. José Eduardo Ribeiro Lima
51. Juliana Girardelli Vilela
52. Leôncio de Arruda
53. Lúcia Farias
54. Luciane Varela
55. Luciano Athayde
56. Luiz Fernando Lucas
57. Luiz Fernando Mussolini Junior
58. Luiz Renato Roble
59. Luiz Riccetto Neto
60. Marcelo Amorim
61. Márcia Trevisioli
62. Marco Antonio Sabino
63. Marcos Antonio Ribeiro
64. Maria Elisabeth de Menezes Corigliano
65. Maria Inês Arruda de Três Rios
66. Maria Lucia Benhame
67. Marilice Costi
68. Mario Ernesto Humberg
69. Mônica Cilene Anastácio
70. Mônica Miranda Franco Vilela
71. Natali Araujo dos Santos Marques
72. Newton Eduardo Busso
73. Paulo Antenor de Oliveira
74. Pedro Lessi
75. Pérsio Ferreira Rosa
76. Rafael Augusto Paes de Almeida
77. Rafael Motta e Correa
78. Rafaela Domingos Lirôa
79. Reginaldo Minaré
80. Régis Fernandes de Oliveira
81. Renata Appel
82. Roberto Monteiro
83. Rodnei Iazzetta
84. Rodrigo Barioni
85. Rodrigo Jacobina
86. Rodrigo Maitto da Silveira
87. Rosana Marques Neto
88. Rosely Lemos
89. Rubens Naves
90. Tom Coelho
91. Valdomiro Soares
92. Victor Polizzelli
93. Werner Kugelmeier
94. Ziara Abud

::Dicas para o consumidor::
© 2001 Consumidor RS...
Página Inicial Entrevistas Notícias Comentaristas Boletim Fórum Estadual de Defesa do Consumidor Variedades Consumidor RS recomenda
Parceiros Consumidor-RS
 > Quem somos
 > O que fazemos
 > Nosso compromisso
 Principais links de  interesse dos  consumidores
 Fale conosco. A sua  opinião é muito  importante para nós.
Como será seu comportamento de consumo neste final de ano em pleno momento de crise econômica mundial?
Vou seguir fazendo compras da maneira que sempre fiz todos os anos!
Terei mais cautela na hora de comprar, com preços e formas de pagamento.
Vou comprar e gastar o mínimo possível!
Estou alheio(a) a este tema./O assunto não me preocupa.