Indústria brasileira: problema ou falso dilema?
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Estaria a indústria brasileira de fato passando por uma diáspora que a reduz e prejudica como um todo? Seria de fato tão significativo o conjunto de elementos que se abate sobre a indústria, que ela no lugar de crescer, decresce e perde em importância na economia brasileira? É esta dupla de indagações que visamos responder, objetiva e sinteticamente.
A indústria em geral cresceu 1,44% ao ano na média, entre 1981 e fevereiro de 2006. Isto é, em 25 anos, prazo suficiente para conhecer-se o dinamismo de um setor, a área fabril brasileira evoluiu 42,94%, uma taxa de pequena monta. A indústria conta com o setor extrativo mineral e o de transformação. No primeiro, concentra-se a retirada de minérios das jazidas, num país particularmente bem dotado de recursos naturais, pela natureza. No segundo, por obra e esforço do homem, aprimora-se e altera-se a constituição das matérias primas, gerando-se um novo produto acabado, transformado.
Entre 1981 e 2006, a indústria extrativa mineral cresceu 389,65% ou uma média anual de 6,56%. O crescimento do setor no mundo foi de 3,14% ao ano. Logo, isto revela que a indústria brasileira foi bem dinâmica, ativa, participante e assumiu um papel de liderança e de ponta. Pode-se afirmar que a indústria extrativa mineral brasileira é muito bem sucedida, gera produto e renda e move-se na direção de contribuir com firmeza a favor do desenvolvimento econômico. Pena é que, por suas características intrínsecas, essa indústria seja capital intensiva e tecnologicamente concentradora de capitais. Como decorrência, gera relativamente poucos empregos.
Ao longo deste último quarto de século, os brasileiros trataram de comprar carros, geladeiras e fogões. Articularam-se para aparelhar suas moradias e o fizeram num ritmo anual substancioso. O que foi francamente mal é a indústria de bens de capital, que cresceu à taxa de 0,66%. E este dado é de fato grave, pois este é o setor gerador de investimentos, o propulsor do investimento e logo a máquina motriz do desenvolvimento.
Sintomático do não crescimento interno e da baixa renda da população no período estudado é a mínima taxa de crescimento anual da indústria de bens de consumo não duráveis: 0,76%. Isto revela que a capacidade interna de absorção de produtos foi pífia, redundando em baixos investimentos no setor e sem alimentar, por falta de expansão, a indústria de bens de capital.
Outra forma de verificar-se a efetiva dinâmica industrial pode ser oferecida pela análise da evolução dos indicadores industriais na forma de sua produção física. Isto é, analisar índices evolutivos quantum revela o aumento ou a queda nas quantidades produzidas, o que se associa com demanda e capacidade de oferta local e internacional.
Desempenho sofrível sucedeu com as indústrias têxtil, com taxa de menos 1,22% anual e de bebidas com menos 0,46%. Em que pese a matéria prima barata como o algodão brasileiro, boa parte da endividada indústria de tecidos fechou suas portas e não conseguiu competir com os produtores estrangeiros, as fibras sintéticas e as malhas oriundas da Ásia, notadamente da China.
Muito bom desempenho é dado pela produção de máquinas agrícolas, que cresceu à média anual de 6,52%, praticamente dobrando de tamanho em 11 anos. Este é um indício vigoroso de que, de fato, o setor agrícola, primário, equipou-se, reforçou-se em tecnologia e, portanto, aparelhou-se para agir competitivamente. Contudo, dependente que é dos regimes climáticos e pluviais, o setor agrícola é arriscado e, por isso, cíclico.
A produção siderúrgica brasileira, que conta com o ferro mais puro do mundo, o que lhe confere competitividade natural, evoluiu a taxas médias anuais próximas às do Brasil na década de 1995/2005, de 2,61%, como foi o caso do aço bruto e tangente às taxas mundiais, de 3,18%, como se manifestou nos setores de ferro gusa, evolução de 3,1% e laminados de aço, com 3,49%. O que realmente foi e vai bem e representa um marco excepcional da moderna indústria brasileira é o setor petrolífero. Dependente do famoso ouro negro em 1974 em 78% do consumo interno, a partir daquele ano o Brasil empreendeu um esforço significativo, que resultou em sua autonomia e auto-sustentabilidade nesse particular. Num momento em que a tendência da maioria dos países é o aumento da dependência de petróleo, o Brasil acerta-se e direciona-se a favor de uma preciosa autonomia.
A industrialização petrolífera ocorreu à firme taxa média anual de 9,22%, um autêntico recorde mundial para países emergentes. Saltar de 699 mil barris para 1.688 mil de 1995 para 2005 é realmente um feito a ser ressaltado e festejado. Demonstra a vitalidade bem focada, desta indústria brasileira. Infelizmente, a produção de cimento estancou, e evoluiu à taxa de 1,03%, o que pode sinalizar sua substituição pelo cimento estrangeiro e a paralisia da vital indústria da construção civil.
Crescimento confortável foi dado pela indústria de embalagens, que tudo abraça, ao gerar uma pesagem que ultrapassou em 2.005 a marca de 2.156 mil toneladas. O crescimento de 4,77% mostra-se firme. Portanto, haja vista o anteriormente analisado, pode-se afirmar que a indústria está em crise e perde-se em firmeza? Os indicadores mostram que, no plano geral, a indústria está em franca retomada seletiva. Isto significa que não é de bom alvitre generalizar. Existem diferenças intra-setoriais marcantes e elas fazem parte da dinâmica mutante de economias em transformação. A demanda muda, os mercados mudam, logo a produção e seus sistemas de suprimento também se alteram. As evidências sugerem que a indústria está modernizando-se e assumirá crescente importância no PIB brasileiro. Sua produtividade crescerá, após um longo período de reposicionamento e revigoramento de suas bases produtivas e tecnológicas.
Revisão e edição: Renata Appel
Presidente da Institutional Business, Economista e Conselheiro Econômico de diversas entidades, dentre Secif-RJ, ACREFI, Instituto Danneman e FEBRAFARMA.
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