Os últimos 4 anos da economia
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Você se lembra da crise por que passamos há exatos 4 anos? Foi uma crise baseada numa única certeza: de que Lula venceria a eleição e faria tudo aquilo que sempre prometera em mais de 20 anos de campanha. Pois bem, se ele realmente tivesse feito seria o caos. Mas ele não fez. Pelo contrário. O governo do presidente Lula aprofundou a ortodoxia econômica de forma inimaginável.
A lição que tiramos daquela crise então é que não devemos antecipar ações futuras com tanta certeza na concretização de fatos que são apenas possibilidades. Os agentes econômicos estavam atônitos diante da iminente vitória de Lula e criaram uma crise artificial que quase contaminou de forma real a economia brasileira por um longo tempo.
Que interessante é ver hoje, dias antes de mais uma eleição presidencial, a calmaria dos mercados. Ninguém tem dúvidas de que, vença quem vencer, a política econômica será preservada, porque ela não é de um partido nem de um presidente. A política econômica é do Brasil. E é com ela que vamos alçar vôos mais consistentes no futuro para a consolidação da democracia.
Tenho lido muitas análises pessimistas em jornais e revistas que falam de forma enfática das nossas mazelas, que evidentemente não são poucas. Não tiro a razão daqueles que focalizam os entraves da economia, porque afinal ainda falta muito para atingirmos uma situação confortável e é somente mostrando de forma contundente o que falta ser feito que forçaremos os governos a atuarem e resolverem efetivamente os problemas.
Para fazer um contraponto, eu procuro lembrar sempre de como éramos e de como estamos no momento. Ninguém em sã consciência pode dizer que estamos pior do que estávamos em 2002. Eu poderia me ater em diversos números, mas vou utilizar somente um para simbolizar outros tantos. Eu escolhi um indicador que, por si só, diz tudo: o risco Brasil. Isso mesmo. Esse indicador mostra a percepção de vulnerabilidade da nossa economia para os investidores de todo o mundo. Parece bater na mesma tecla dizer que o risco Brasil chegou próximo aos 2500 pontos no auge da crise de confiança de 2002 e que agora está num patamar histórico de apenas 200 pontos. Mas eu não vou cansar de tocar nesse assunto. Afinal, em 4 anos reduzimos o risco a menos de um décimo. Se isso não for algo a ser comemorado, o que será então? Estamos nos aproximando, a largos passos, de sermos investment grade. E quando chegarmos nesse nível, o que falarão aqueles que sustentam sempre a posição pessimista?
Lula não fez o governo dos nossos sonhos. Mas ninguém pode tirar os louros da vitória econômica desse governo. Lula aprofundou a política econômica, acreditando em coisas que, até então, seriam palavrões na cartilha petista, como superávit primário e taxas de juros altas. O superávit não só aumentou como os juros não baixaram por decreto. É evidente que temos uma carga tributária das mais altas do mundo sem contrapartida para sociedade. Temos uma dívida interna, que apesar de ter diminuído em relação ao PIB, ainda é altíssima. Convivemos ainda com um crescimento pífio e precisamos urgentemente de reformas na previdência, no judiciário e das tão propaladas reformas política e trabalhista. Mas não é possível resolver tudo de uma única vez, até porque a solução para alguns casos promove efeitos colaterais que contaminam outros indicadores. Contudo, os avanços foram inequívocos e quem quer que venha a governar o país nos próximos 4 anos terá uma situação bem mais confortável e poderá fazer mais reformas.
Apesar de ter enfatizado que várias das conquistas econômicas foram alcançadas no governo do atual presidente, estou certo de que qualquer que seja o próximo governante não terá como seguir outra cartilha. Como já disse e enfatizo, essa política econômica não é de Lula nem foi de Fernando Henrique. Ela é do Brasil. Não restam dúvidas de que a poucos dias das eleições presidenciais de 2006, vivemos um período econômico muito melhor do que há 4 anos. Não existe mais nenhum bicho papão na política que possa desestabilizar nossas instituições. Isso já é uma grande vitória. Que o próximo presidente possa combater com mais determinação a corrupção e redistribuir, enfim, a renda nesse país para que as conquistas não fiquem delimitadas somente às análises de articulistas econômicos como eu. Mas isso já é conversa para nossos próximos textos.
Revisão e edição: Renata Appel
Presidente do Sindicato das Financeiras dos estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, Vice-Presidente da Federação Nacional das Empresas de Crédito, Financiamento e Investimento (Fenacrefi) e Diretor da ASB Financeira
e-mail do autor:
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