A inimiga número 1 da nação
Plano Cruzado, Plano Cruzado II, Plano Bresser, Plano Verão, Plano Collor, Plano Collor II e, enfim, o Plano Real. Foi o fim da inflação. É inadmissível que o famigerado dragão volte a queimar a riqueza nacional e a produzir o caos social.
Estou preocupado, mas esperançoso de que o bicho vai ser controlado rapidamente. Meu medo é, em grande parte, justificável. Após mais de seis anos sem atingir os dois dígitos no acumulado do ano, tudo indica que 2002 vai fechar com custo de vida acima dos 10%.
É um momento delicado. As lembranças de tempos atrás não são nada boas. Em fevereiro de 1990, registrou-se o pior nível de inflação. Naquele mês, o último do governo Sarney, o custo de vida atingiu inimagináveis 84%. A última grande baforada do dragão foi no último mês antes da implantação do Plano Real, em junho de 1994, quando ultrapassou os 40%.
A partir daí, a inflação foi declinando ano a ano. E desde 1997 não atingia os dois dígitos. Na luta contra a inflação, o Brasil viveu planos econômicos de todos os tipos e calibres. Nossa moeda trocou de nome cinco vezes. Só mesmo o Plano Real deu jeito na inflação. Por isso, não podemos deixar todo esse trabalho ir por água abaixo.
O leitor deve se lembrar da desvalorização do Real, em fevereiro de 1999. Os produtos que subiram de preço foram boicotados e a inflação foi contida. Essa atitude deve servir de exemplo agora.
E como chegamos à difícil situação atual? Os preços foram afetados principalmente pelo dólar, que beirou os R$ 4 e pela subida da cotação dos produtos agrícolas no mercado internacional. As incertezas da campanha eleitoral também contribuíram para o cenário desfavorável.
Por fim, estamos vivendo uma contaminação nos preços de produtos cuja produção e venda nada tem a ver com custos em dólar ou preços internacionais. Há quem diga também que o Banco Central foi falho em não sinalizar com firmeza sua decisão de conter a inflação dentro da meta de 6,5%, acertada com o FMI.
Diante de tudo isso, agora mesmo é que todos os olhos da nação se voltam para Lula. O mais importante é o Presidente Eleito não se render à indexação. Indexação é a correção legal e automática de todos os preços, inclusive os salários. Esse mecanismo cria uma proteção aparente, uma faca de dois gumes contra a inflação, pois ao contrário de combatê-la, logo estimula a subida de preços. E essa história você já viu: nunca os salários conseguem subir na mesma velocidade que os preços.
O coordenador da equipe de transição do governo, Antonio Palocci, já disse que o padrão de inflação considerado desejável pelo novo governo é aquele que não dê margem à demanda por reindexação e que garanta o cumprimento de todos os contratos prefixados anteriormente. É um fator a mais para nos tranqüilizar.
De fato, se Lula não se render ao clamor por indexação, poderá controlar a inflação. Do contrário, veremos a volta da inflação inercial, que, a cada mês, é maior que o anterior.
Uma coisa é certa. Estamos todos atentos à subida de preços. Com medo dos reajustes, os consumidores retomaram velhos hábitos, como a pesquisa de preços e o estoque de alimentos em promoção.
O importante agora é adequar o rendimento familiar ao reajuste de preços. A inflação prejudica principalmente a população de menor poder aquisitivo. O povo acaba tendo que gastar mais para utilizar serviços como energia, transporte e telefone, e comprar os produtos essenciais, como feijão preto, farinha de trigo, óleo de soja e açúcar, alimentos que mais aumentaram nos ultimos meses.
Por isso, o consumidor não pode fraquejar. Deve reagir contra a inflação. Comprar produtos mais baratos e não se preocupar tanto com a marca. Pode até pressionar o gerente do supermercado a negociar melhores preços com os fornecedores.
A luta contra a inflação deve ser o principal compromisso de todos os brasileiros no primeiro ano do governo Lula. Caso contrário, arriscaremos perder tudo o que já conquistamos nos últimos anos. Precisamos caminhar para frente, resolvendo agora as questões sociais. E este sonho somente será possível com inflação baixa.
Revisão e edição: Renata Appel
Presidente do Sindicato das Financeiras dos estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, Vice-Presidente da Federação Nacional das Empresas de Crédito, Financiamento e Investimento (Fenacrefi) e Diretor da ASB Financeira
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