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Comentarista: Cláudio Boriola
Dia das Mães: agiotas oficiais agem no comércio

O Dia das Mães está chegando! Desde 12 de maio de 1918, data da primeira comemoração no País, pais e filhos ficam desesperados sem saber o que dar de presente para a dona do lar. Em 1918 — e até alguns anos atrás — ainda era aceitável dar presentes como panelas, panos de prato ou utensílios domésticos, como se a mãe fosse uma extensão do lar ou vice-versa. Mesmo que as mães não sejam exigentes, é de bom grado oferecer presentes um pouco melhores a fim de não abalar a estrutura do doce lar.

Esses presentes “um pouco melhores” já começam a aparecer em panfletos e propagandas nas mais diversas mídias. Os olhos dos consumidores brilham ao ver os grandes aparelhos de TV e os aparelhos celulares modernos e cheios de recursos. É claro que uma mãe merece o presente mais valioso do mundo, mas é preciso muito cuidado na hora de escolher a lembrança e adequá-la ao orçamento. É preciso também verificar se não há nenhuma conta pendente antes de iniciar uma nova, afinal um presente de Natal parcelado em 6 vezes ainda está sendo pago. E você não se esqueceu das contas do início do ano, não é? Matrículas e materiais escolares, IPVA, IPTU e outros tantos impostos que temos de aturar o ano todo.

O parcelamento é a principal arma das lojas nesses períodos festivos. As lojas colocam no papel o logotipo de uma financiadora e dizem: “Aqui você está seguro. Pode vir comprar”. Na conclusão da compra, em letras pequenas, lá estão eles, os juros, que podem chegar aos estratosféricos 429% ao ano. O nosso sistema de juros faz com que as lojas ajam como verdadeiros agiotas oficiais. Quem já tem pouco, fica com menos ainda, e aquele cuja renda não permite realizar os sonhos à vista, recorre às compras a prazo como forma de salvação, mas acaba se enforcando mais ainda. Antes de acabar uma conta, já começa outra, atrasa um pagamento... e aí, para virar uma bola de neve, é fácil!

Segundo o Banco Central, os créditos ao consumidor atingiram no ano de 2005 a marca de R$ 154 bi, o que corresponde a 8% do nosso PIB. Para se ter uma idéia, há 10 anos, no início do Plano Real, os números chegavam a “pequenos” R$ 34 bi, 2,4% do PIB. Para provar a sede das lojas, financiadoras e bancos, pelos consumidores, houve um aumento também na participação de pessoas físicas no total de empréstimos. Nos mesmos 10 anos, a porcentagem de empréstimos a pessoas físicas subiu de 12% para 45,8%.

Um dos maiores riscos a que os consumidores se expõem é o crédito consignado. Lojas autorizadas debitam compras e parcelas diretamente da folha de pagamento do funcionário/aposentado/consumidor. Esse método, quando surgiu, em 2004, movimentou cerca de R$ 11 bilhões. Já em 2006, a expectativa é de que estes empréstimos atinjam estratosféricos R$ 33,6 bilhões. Com isso, o salário ou a aposentadoria de milhões de brasileiros vem um pouquinho menor durante vários meses, o que pode fazer com que a pessoa recorra a mais empréstimos para saldar dívidas que podem aparecer pelo caminho.

Se você vai insistir na compra de um “grande” presente para a sua mãe, pode contar com a ajudinha (e os juros) das financiadoras. Atualmente, algumas chegam a fazer contratos de empréstimos com parcela mínima de R$ 20, por 24 meses. Algumas também prometem realizar o sonho do carro barato em até 72 vezes. Já parou para pensar o quanto pagará de juros? Numa simulação um pouco menos demorada (48 meses), um carro ano/modelo 2004/2004 no valor de R$ 30 mil deverá ser pago com uma entrada de R$ 9 mil e parcelas de R$ 729,90, totalizando R$ 44.035,02. O mesmo carro (modelo, ano, valor), pago em somente 6 parcelas, na mesma financiadora, sai por R$ 32.135,46. As parcelas vencem, o tempo passa, o tempo voa... e o dinheiro também.

Então, procure um meio termo na hora de escolher um presente para dar à sua mãe. Costuma ser verdade quando elas dizem: “não precisa ser muita coisa, filho”, mas também não volte lá para 1918 dando uma panela de presente! Flores são baratas e agradam a todas as mães, só procure saber se ela não é alérgica. Ah, e não se meta com os modernos agiotas! Esse caminho é considerado perigoso, e as pessoas endividam-se cada vez mais.

Revisão e edição: Renata Appel


Consultor Financeiro, Conferencista, Especialista em Economia Doméstica e Direitos do Consumidor. Autor do livro Paz, Saúde e Crédito – Editora Mundial e do Projeto para inclusão da disciplina "Educação Financeira nas Escolas".  
e-mail do autor: claudioboriola@boriola.com.br
 
 

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