O passado que não passa
Pensei muito em escrever sobre a queda do ex-Ministro, Antônio Palocci. Tinha até um título bem interessante: "Prefeito derruba ministro". Mas decidi alargar um pouco mais o pensamento, dar um sentido novo para a queda de Palocci. Para mim, uma triste queda. Guardadas as devidas proporções, posso fazer um paralelo com a derrota do Brasil para a Itália em 1982, quando todo mundo chorou. Tem gente que diz que não chorou, mas eu não acredito. Faço também um outro paralelo, que não me xinguem os mais antigos, com aquele triste Maracanã da derrota de 1950. Foi dito que, aos poucos, Lula perdeu todo o núcleo duro que o sustentava. Mas núcleo duro é uma coisa. Palocci era outra bem diferente, porque Palocci fazia a diferença. Sou otimista. Sempre fui e vou continuar sendo. Mas seria muito mais otimista se Palocci continuasse na Fazenda pelo menos até o fim deste governo. Então, mais uma vez, só tenho a lamentar a saída do ex-Ministro.
Mas, retomando a idéia inicial, vamos analisar os motivos que levaram à queda de Antônio Palocci. Eu poderia enumerar aqui a lista de denúncias que acabaram caindo sobre ele. Mas quero me ater a uma somente. Para mim, o Prefeito de Ribeirão Preto, de alguns anos atrás, foi quem pediu a cabeça do Ministro de hoje. Que pena! Palocci, quando comandava a Prefeitura de Ribeirão Preto, talvez não tivesse idéia de quão importante seria, anos depois, para a nação brasileira. Não tenho motivos para não acreditar nas boas intenções do ex-Ministro e muito menos para acusá-lo de coisa alguma. Mas, no mínimo, um prefeito, um governador e um presidente da República precisam estar sempre cientes do que seus subordinados andam fazendo pelos corredores.
Tem hora que não dá para saber de tudo, é bem verdade. Os esquemas são muito complexos e, muitas vezes, vêm de anos e anos. Mas ao saber de algo irregular, é preciso punir rapidamente, é preciso dizer o que aconteceu, custe o que custar. É imprescindível manter a transparência. Afinal, o bem público precisa estar em 1º lugar. Talvez por achar que seria pior denunciar algum escândalo ou mesmo bater de frente com algum esquema político já montado. Talvez para não mexer num vespeiro, Palocci possa ter se calado em Ribeirão. Mas são apenas divagações que faço agora junto com todos os brasileiros. O fato, no entanto, é que o passado passou a lhe cobrar agora. Justo agora que Palocci era, para mim, o principal homem da República. Lula tem mais votos e muito mais carisma, mas o conjunto da obra do ex-Ministro é muito superior ao do Presidente.
Que pena que não podemos passar uma borracha no passado. Todo mundo diz, com toda razão, que temos que viver o presente e projetar um futuro melhor. Sim, essa é a visão otimista e é bom que seja assim mesmo. Mas que tal termos especial cuidado com os nossos atos no dia de hoje e de nossos subordinados, se os tivermos? Poderemos ser uma figura de muito maior importância num futuro próximo e pormos tudo a perder por um erro ou mesmo por um simples descuido com algo que esteja acontecendo agora, nas nossas barbas, como dizem por aí.
Quem perdeu com a saída de Antônio Palocci não foi o Presidente Lula; não foi o Partido dos Trabalhadores; e nem pensem que a oposição ganhou com a queda do ex-Ministro – não! Todos perdemos, e principalmente perdeu a nação brasileira, tão carente de homens públicos da capacidade, da inteligência e do jogo de cintura do ex-Ministro. Quanto tempo leva para se formar um político da envergadura de Antônio Palocci? Que o luto vivido pelo Brasil sirva de lição para as pessoas de bem e competentes que desejam realmente ajudar na construção de um país melhor para nossos filhos e netos. Que sirva de lição também para o Presidente Lula, que julgo um homem de bem e que deseja o melhor para o nosso povo, muito mais do que ser reeleito. O episódio da renúncia do ex-Ministro mostra que o passado realmente só passa quando não ficam situações pendentes. O passado não passou para Antônio Palocci. Um Prefeito de Ribeirão Preto derrubou o brilhante Ministro da Fazenda.
Revisão e edição: Renata Appel
Presidente do Sindicato das Financeiras dos estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, Vice-Presidente da Federação Nacional das Empresas de Crédito, Financiamento e Investimento (Fenacrefi) e Diretor da ASB Financeira
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