O papel notório do “insensível” FMI
Ao longo das décadas, percebeu-se que o papel do Fundo Monetário Internacional (FMI) era, de fato, o mais relevante possível. Os países problemáticos passaram a solicitar ajuda, orientação e, sobretudo, dinheiro. E a qualquer choque internacional, ocasião na qual um país quebrado inicialmente poderia deslanchar, por efeito dominó, uma avalanche de perdas seqüenciais, o FMI cumpria o seu papel de guardião das finanças internacionais.
Foi assim com o esforço de recuperação das nações européias no pós–segunda guerra mundial, quando Alemanha, França, Itália e Inglaterra precisaram de duas décadas para recuperar suas economias combalidas, e com o Japão, que sofreu pesados bombardeios norte-americanos que incineraram a sua economia produtiva industrial. Da mesma forma, sucederam-se outras crises mundiais, freqüentemente apelidadas pelo país ou continente que as deslanchou. Assim, foram sucedendo-se nas décadas de 1980 e 1990 as crises do México, da Argentina, dos Tigres da Ásia, e da Rússia, entre as mais notáveis. E no meio deste ambiente, no qual interesses, poderes, vaidades fazem o caldo de cultura a ser administrado, os países tomadores, geralmente do bloco dos subdesenvolvidos e em desenvolvimento, passaram a estrilar sobre as “ingerências indevidas, drásticas e pesadas do FMI” em suas políticas internas macroeconômicas. Adicionalmente, alertavam que as medidas e condicionalidades propostas equivaliam a uma forma de intromissão em assuntos e questões estritamente nacionais, logo a uma ordem externa que se dissociaria da realidade local e dos interesses nacionais.
Isto valeu ao FMI o rótulo infeliz e que é complicado de retirar, posto que uma imagem adquirida dificilmente se dissipa em curto e médio prazo, restando uma memória de “insensível às demandas e realidades dos países em estado de iliquidez”, especialmente pela ausência de mecanismos nestes, que pudessem reduzir e aliviar os intensos efeitos provocados pelas políticas e medidas sanitizantes sobre as nações.
Esta sensação de intervenção criou inúmeros conflitos entre a agência e as nações. No Brasil, isto não foi diferente. Pelo contrário, ainda remanescem os rufares dos tambores anti-FMI, nos anos 1980, 1990 e neste início de milênio, capitaneados com grande alarde pelas ruas pelo PT, ora no poder, bradando a plenos pulmões o inesquecível refrão: “Fora FMI!”. Aos olhos do grande público, o FMI foi diabolizado pelas esquerdas. E nas horas eleitorais, ele foi utilizado como um bode expiatório, um mal, um flagelo, um ente que explicaria numerosas mazelas da nação. Como se o FMI fosse responsável por políticas internas mal concebidas, modelos econômicos e administrativos frágeis e limitados, equipes de lideranças assumindo cargos públicos sendo destituídas de preparo, séculos de descaso com a política social integrada de grande alcance, um Estado paquidérmico e indolente sob vários aspectos, a ausência de controles e cobranças rigorosas e completas sobre o gasto público, a posse por castas egoístas do Estado em proveito próprio, entre outros problemas crepitantes que afligem o Brasil.
Na verdade, com ou sem maior diplomacia, o FMI propôs medidas corretivas, que por mexerem com os interesses estabelecidos e logo com o poder, podiam sensibilizar e suscetibilizar as lideranças e elites estabelecidas, assim como serem usadas como eixo de discussão para a adoção ou não de políticas macro e públicas de interesse da nação pelos partidos opositores. Em que pese complexas críticas aventadas sobre o FMI em meados dos anos 1990 pelas autoridades estabelecidas no Brasil, afirmando que ele era defasado, estava ultrapassado para a dimensão dos problemas internacionais e não tinha capacidade de regularizar os fluxos internacionais de capitais porque as cotas de contribuição ao fundo eram baixas, o órgão manteve-se firme em seu papel de promotor da liquidez financeira internacional. E mais recentemente, na virada do século, deu sinais claros e indeléveis de modernidade, revisando diversos padrões comportamentais e atitudinais, afeitos às necessidades nacionais e que permitiram o uso de seus recursos em grande monta, mais uma vez, quando o Brasil enroscou-se na crise cambial de 1998/1999 e, sobretudo, ao perder suas reservas internacionais por acumular déficits no Balanço de Pagamentos que estouraram o seu caixa em 2002.
Naquele ano, as autoridades estabelecidas fecharam um acordo para receber US$ 30 bilhões do FMI, para reequilibrar as contas externas. Em fim de governo, negociaram com as novas autoridades, estas advindas das hostes trabalhistas do PT, a manutenção e o cumprimento de um novo acordo. Assim, ainda sem governar, o PT aceitou um crédito que não quereria negociar noutras condições, de seu detrator político. Suprema ironia do destino. Todavia, dotado de nobreza, altivez e perseverança no trato político, o novo governo mostrou maturidade ao aceitar resolver um problema nacional de até certo ponto curto prazo, e entender que seus propósitos poderiam ser alcançados do médio prazo em diante.
Efetivamente, segundo a própria visão do FMI, de 2003 em diante, “a adesão firme do governo a políticas macroeconômicas prudentes firmou as bases a favor de uma recuperação sustentável no crescimento e no emprego, na redução firme da inflação, e um bom progresso na redução da pobreza e da desigualdade”, na visão do Managing Director Rodrigo de Rato, em janeiro de 2006. O governo operário viu as medidas de otimização do comércio internacional, plantada em 1999 pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso, maturarem em 2003. Ademais, aproveitou bem um ambiente econômico mundial favorável para a expansão comercial e reduziu seu coeficiente de exposição externa ao pagar dívidas e minimizar a divida externa. Isto gerou uma crescente confiança do mercado de capitais na saúde macroeconômica do Brasil.
Uma vez paga a dívida com o FMI, o Brasil deixou de ser tomador a partir de dezembro de 2005. Isto é auspicioso e digno de comemoração, porque mostra que o país tem uma política macro consistente, séria, e coerente no plano geral. Muito embora, naturalmente, haja muito dever de casa por fazer e polêmicas não faltem.
Em vez de pagar em 2007 a dívida com o FMI, o Brasil pagou-a plenamente e bem antes do esperado. Isto dá moral à nação, reforça a sua imagem positiva frente aos credores e investidores internacionais e prova que de modo diferente do esperado, o “Fora daqui, o FMI”, ocorreu. Na paz, com elegância e da forma mais inteligente, pagou-se o devido e o credor deixou de ter interesses pecuniários com o Brasil, com o que eventuais e supostas ingerências não teriam sequer remotas chances de ocorrer.
Revisão e edição: Renata Appel
Presidente da Institutional Business, Economista e Conselheiro Econômico de diversas entidades, dentre Secif-RJ, ACREFI, Instituto Danneman e FEBRAFARMA.
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