Lula chegou lá. E agora?
Passada a euforia da eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência da República, o mercado se pergunta: afinal, Lula é ou não é o bicho-papão cuja candidatura, no auge da especulação, fez o dólar chegar a R$ 4, a bolsa atingir míseros 8 mil pontos e o risco-Brasil alcançar a inimaginável marca de 2.500 pontos?
Tudo indica que não. Hoje, o dólar está em torno de R$ 3,50, com tendência de queda, a bolsa subiu novamente para 10 mil pontos e o risco-país baixou para 1.700 pontos. O pessimismo do mercado parece começar a dar lugar à razão.
Mas toda essa especulação trouxe enorme prejuízo econômico para o País. A inflação subiu, a dívida pública acompanhou o dólar caro e o ritmo de crescimento, já lento, deverá ser mais reduzido com a elevação dos juros.
Para recuperar o prejuízo, Lula tem que seguir à risca uma cartilha de política econômica apertada, severa no controle da inflação e austera nas contas públicas. Tudo para conseguir o superávit primário firmado com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Baixar os juros, de imediato, nem pensar!
O que vem acalmando o mercado é a boa atuação de Lula até o momento. Em seu primeiro discurso como presidente eleito, combinou declarações a favor da atual política econômica com o lançamento do Programa Fome Zero. O mercado ficou satisfeito: os contratos serão respeitados. E os eleitores também ficaram satisfeitos: afinal, desde o início do governo, vai ser combatida uma das grandes mazelas sociais: a fome.
Aliás, esta é a mais importante meta de seu governo, segundo o próprio Lula. O petista disse que terá realizado a missão de sua vida se, ao final dos quatro anos de mandato, cada brasileiro puder fazer três refeições por dia.
Para os eleitores, fica o alívio de sentir que a preocupação pelo social continua firme no discurso do presidente eleito. Ao mesmo tempo, Lula mostra maturidade ao reconhecer que as limitações do País existem e não podem ser resolvidas com uma varinha de condão.
Não é possível atender a todas as demandas sociais ao mesmo tempo. Corre-se o risco de se perder o rumo da economia, com calote e recessão: elementos impensáveis para quem deseja manter uma boa imagem no Exterior.
Para mostrar que o discurso de campanha não foi somente jogada de marketing, os petistas também logo renovaram as promessas: superávit primário, austeridade fiscal, cumprimento dos contratos, combate à inflação e câmbio flutuante. Como objetivo para o primeiro ano, também citaram as reformas tributária, previdenciária, trabalhista e agrária.
A reação do mercado à chegada de Lula foi boa principalmente por dois motivos. O primeiro foi a tranqüilidade com que o País recebeu a primeira vitória de um líder operário e seu partido de esquerda. Outro ponto favorável foi a amistosa e eficiente transição oferecida pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, claramente satisfeito em passar a faixa presidencial para Lula.
Recentemente, FH foi só elogios a Lula em Portugal. Tranqüilizou os empresários locais em relação aos rumos do novo governo. Vale lembrar que também contribuiu muito para este clima favorável a designação do moderado Prefeito de Ribeirão Preto, Antonio Palocci, para coordenar a equipe de transição.
Mas não tenhamos ilusões. O caminho do presidente eleito vai exigir muita firmeza. O primeiro ano de governo Lula será muito difícil. O importante é que ele vai respeitar os contratos. Não acho que irá decepcionar o País.
Aos poucos, o rumo da economia será definido, o novo ministério vai sendo composto e todas as dúvidas terminarão. Para mim, o dólar vai cair para um patamar mais realista até o fim deste ano e a economia vai voltar a crescer.
Apesar de tantas demandas pela frente, quero parabenizar o presidente eleito. Depois de uma longa trajetória no cenário político brasileiro, o ex-metalúrgico chegou lá. Quem não se lembra do Lula radical, inimigo dos empresários? Foi justamente este Lula que perdeu a eleição em 89 para Fernando Collor. E que, nas eleições seguintes, em 94 e 98, levou um banho de Fernando Henrique já no primeiro turno.
Após tantas derrotas, o petista não podia insistir no erro do radicalismo. Mudou o discurso, adotou postura moderada, amadureceu. Reconhece as limitações do País, mas garante também que não vai se esquecer das demandas sociais.
Fica a sensação de que se Lula conseguir realmente conciliar uma eficiente política econômica com os avanços sociais almejados pela sociedade, poderá fazer o melhor governo que este País já teve.
Revisão e edição: Renata Appel
Presidente do Sindicato das Financeiras dos estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, Vice-Presidente da Federação Nacional das Empresas de Crédito, Financiamento e Investimento (Fenacrefi) e Diretor da ASB Financeira
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