Os "mendigos do orçamento"
Como controlar as massas?
Na história recente, são abundantes as mais diversas teses, proferidas tanto pelos pensadores da direita, quanto pelos da esquerda. Hoje, absortos e capturados, quase hipnotizados por interesses econômicos, o pensamento se tornou uno. Ao invés de terem a ciência econômica como um instrumento, tornaram-na a finalidade.
Orçamentaram as oportunidades e escolhas da população.
Conseguiram estabilizar a sua miséria, para que se conforme e "não invente, tente ou faça algo diferente".
Contabilizaram sua esperança.
Conseguiram fazer com que o talento e a iniciativa possam valer apenas depois de pagar as contas, como se estes pudessem ou devessem depender delas.
Transformaram o trabalho em refém da estabilidade do sistema e da prosperidade de muito poucos. Países inteiros a juros.
Distorceram a finalidade do lucro para justificar qualquer arroubo.
Relativizaram a lei e socializaram, economicamente, o discurso.
No social, é certo que puseram algumas migalhas, para aplacar a fome dos que não tem nem filão de pão e que, obviamente, jamais poderão se fartar também, como poucos, com suflê de camarão.
Uns míseros trocados para o inconveniente assistencialismo, que faz com que os assistidos possam se alimentar, para não incomodar. Para que estudar?
Modernizaram o desenvolvimento, para que este economicamente não inove ou rompa com o orçamento, que paga placê de lucros para poucos, com o sacrifício de todos os outros.
Criaram uma nova categoria humana, os "mendigos do orçamento", aqueles que não devem ter talento ou iniciativa; que precisam viver harmonicamente no sistema, existindo apenas para dividir o seu tempo, esforço, parcas chances e recursos; para manter sistematicamente as vantagens de outros, das usuais oligarquias dominantes. E o pior, os "mendigos do orçamento" não devem pensar, criar ou contestar. Devem apenas compor a massa, sem nome, sem direitos e sem futuro. Sem as principais características que compõem o que costumavam chamar de "dignidade humana". Passando o homem a viver por mais uma vez como no passado, apenas a partir de suas necessidades primárias, acrescidas de uma moderna, ainda que desprezível, "cota de consumo", que lhe outorga a vantagem de ser economicamente educado e controlado, portanto, viável.
Afinal, "mendigo do orçamento" que se preze, precisa pagar sua condução, comer seu sanduíche, assistir à novela das 8 e pagar todas as suas continhas. Poderá até escolher, uma vez por mês, entre ir ao cinema, comprar um livro ou jantar fora com a família.
Desculpe pela franca ironia, mas há ainda um grande momento para o "mendigo do orçamento", que é aquele em que, depois de ter cumprido todas as suas pífias tarefas existenciais, ainda consegue puxar o saco de alguém, para agradar ao sistema que miseravelmente lhe remunera e que, eficientemente, lhe controla.
É a mais completa escravidão das massas, aos tempos modernos. E é uma pena que os novéis mendigos do orçamento aceitem e até apóiem tal condição, que também os transforma, ao mesmo tempo, infelizmente, em meros idiotas.
Revisão e edição: Renata Appel
Advogado com especialização em Direito Empresarial pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo de São Francisco), é presidente da Comissão de Cooperativismo da OAB/SP, membro da Comissão de Estudos da Regulação e Concorrência (Cecore) da OAB/SP e da Comissão de Direito na Sociedade da Informação da OAB/SP, Coordenador do Curso de Direito do Cooperativismo da Escola Superior de Advocacia de São Paulo (ESA) e membro do grupo de estudos tributários da FIESP.
e-mail do autor:
cooperativismo@oabsp.org.br
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