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Comentarista: Antonio Luís Guimarães de Álvares Otero
Os "mendigos do orçamento"

Como controlar as massas?

Na história recente, são abundantes as mais diversas teses, proferidas tanto pelos pensadores da direita, quanto pelos da esquerda. Hoje, absortos e capturados, quase hipnotizados por interesses econômicos, o pensamento se tornou uno. Ao invés de terem a ciência econômica como um instrumento, tornaram-na a finalidade.

Orçamentaram as oportunidades e escolhas da população.

Conseguiram estabilizar a sua miséria, para que se conforme e "não invente, tente ou faça algo diferente".

Contabilizaram sua esperança.

Conseguiram fazer com que o talento e a iniciativa possam valer apenas depois de pagar as contas, como se estes pudessem ou devessem depender delas.

Transformaram o trabalho em refém da estabilidade do sistema e da prosperidade de muito poucos. Países inteiros a juros.

Distorceram a finalidade do lucro para justificar qualquer arroubo.

Relativizaram a lei e socializaram, economicamente, o discurso.

No social, é certo que puseram algumas migalhas, para aplacar a fome dos que não tem nem filão de pão e que, obviamente, jamais poderão se fartar também, como poucos, com suflê de camarão.

Uns míseros trocados para o inconveniente assistencialismo, que faz com que os assistidos possam se alimentar, para não incomodar. Para que estudar?

Modernizaram o desenvolvimento, para que este economicamente não inove ou rompa com o orçamento, que paga placê de lucros para poucos, com o sacrifício de todos os outros.

Criaram uma nova categoria humana, os "mendigos do orçamento", aqueles que não devem ter talento ou iniciativa; que precisam viver harmonicamente no sistema, existindo apenas para dividir o seu tempo, esforço, parcas chances e recursos; para manter sistematicamente as vantagens de outros, das usuais oligarquias dominantes. E o pior, os "mendigos do orçamento" não devem pensar, criar ou contestar. Devem apenas compor a massa, sem nome, sem direitos e sem futuro. Sem as principais características que compõem o que costumavam chamar de "dignidade humana". Passando o homem a viver por mais uma vez como no passado, apenas a partir de suas necessidades primárias, acrescidas de uma moderna, ainda que desprezível, "cota de consumo", que lhe outorga a vantagem de ser economicamente educado e controlado, portanto, viável.

Afinal, "mendigo do orçamento" que se preze, precisa pagar sua condução, comer seu sanduíche, assistir à novela das 8 e pagar todas as suas continhas. Poderá até escolher, uma vez por mês, entre ir ao cinema, comprar um livro ou jantar fora com a família.

Desculpe pela franca ironia, mas há ainda um grande momento para o "mendigo do orçamento", que é aquele em que, depois de ter cumprido todas as suas pífias tarefas existenciais, ainda consegue puxar o saco de alguém, para agradar ao sistema que miseravelmente lhe remunera e que, eficientemente, lhe controla.

É a mais completa escravidão das massas, aos tempos modernos. E é uma pena que os novéis mendigos do orçamento aceitem e até apóiem tal condição, que também os transforma, ao mesmo tempo, infelizmente, em meros idiotas.

Revisão e edição: Renata Appel


Advogado com especialização em Direito Empresarial pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo de São Francisco), é presidente da Comissão de Cooperativismo da OAB/SP, membro da Comissão de Estudos da Regulação e Concorrência (Cecore) da OAB/SP e da Comissão de Direito na Sociedade da Informação da OAB/SP, Coordenador do Curso de Direito do Cooperativismo da Escola Superior de Advocacia de São Paulo (ESA) e membro do grupo de estudos tributários da FIESP.  
e-mail do autor: cooperativismo@oabsp.org.br
 
 

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