A Economia descolada da Política
Desde que surgiu a primeira denúncia no caso dos Correios envolvendo o deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ) passei a acompanhar, com muita atenção, o Risco Brasil e os demais indicadores.
Quando o deputado concedeu entrevista, atirando para todos os lados, não me restavam dúvidas de que, naquela mesma segunda-feira, os indicadores econômicos ficariam sobressaltados. Mas, para minha surpresa, permaneceram comportados até demais. Pensei: nos próximos dias, quando a situação piorar, o mercado vai enfim ficar nervoso.
Pois bem, espero até hoje esse momento em que a crise política sem precedentes por que passamos vai contaminar a economia. Já estou me cansando. É bom ficar claro que nunca torci pela piora da economia. Não compactuo com os pessimistas. Apenas não acreditava que fosse possível um descolamento entre política e economia.
E por que, dessa vez, a economia não foi contaminada? Existem fatores objetivos e alguns subjetivos:
A relação dívida/PIB, que ultrapassou os 62% no auge da crise de confiança em 2002, agora está beirando os 50%, com tendência clara de queda.
O superávit da balança comercial não pára de bater recordes, apesar de o Real estar tão sobrevalorizado. O engraçado é que o superávit aumenta a cada mês e o dólar vem caindo ainda mais. É mágica? Não creio. Já não acredito em mágicas há muitos anos.
O que vem acontecendo chama-se ganho de produtividade. Nossas empresas estão muito competitivas e ganham mercado dia a dia. O cenário para exportação é o pior possível: dólar em níveis de fevereiro de 2002, portos e estradas que não contribuem em nada para o escoamento da produção e juros proibitivos à atividade produtiva. Imagine de quanto seria o saldo da nossa balança se as condições fossem menos piores. Nem digo favoráveis!
Voltando ao nosso tópico, ou seja, por que a crise política não vem interferindo na economia, outro fator é o controle da inflação. Está muito claro que o Banco Central não vai se descuidar com a inflação, muito pelo contrário. Vem chegando ao extremo do conservadorismo para acertar o centro da meta estipulado, o que dá garantia aos investidores de que os preços seguirão estáveis e de que nada vai interferir em suas políticas, mesmo que desagrade grande parte da sociedade.
De todas as armaduras de que se reveste a economia talvez a mais importante seja o nível de reservas do país. Hoje, mesmo sem a renovação do acordo com o FMI, temos reservas suficientes para resistirmos a possíveis especulações.
Citei também algumas questões subjetivas que fariam diferença nesse momento. A primeira é o fato de existir muita liquidez internacional. Uma segunda, ainda mais subjetiva, é o fato de um governo de esquerda estar no poder há quase 3 anos e não ter havido nenhuma ruptura. Já se notou, neste país, que, seja de direita, de esquerda, de centro ou do que for o governo, a economia tem sua trajetória muito bem definida e cada vez mais ortodoxa.
Muita gente vem dizendo que, uma hora, a crise política vai acabar respingando na economia. Já explicaram até que a infecção demora um certo tempo até chegar ao setor produtivo.
Não restam dúvidas de que é assim que acontece. Mas é importantíssimo ressaltar que o primeiro impacto é sempre sentido no mercado financeiro. As crises que contaminam o setor produtivo são iniciadas primeiramente no mercado, com a elevação da percepção de risco do país. E isso não aconteceu, pelo menos até agora. E não me parece que vai acontecer. Então por que tanta certeza de que haverá uma crise na economia real?
A economia finalmente está descolada da política. Pode ser que tudo mude no futuro? Pode. Tudo pode. Mas eu não apostaria minhas fichas num cenário negativo. O cenário será de muitas incertezas políticas, mas de muitas certezas na economia. Aposto num cenário de contínuo desenvolvimento.
Revisão e edição: Renata Appel
Presidente do Sindicato das Financeiras dos estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, Vice-Presidente da Federação Nacional das Empresas de Crédito, Financiamento e Investimento (Fenacrefi) e Diretor da ASB Financeira
e-mail do autor:
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