Crise política não altera rumos do Copom
A forte crise política por que passa o País, com denúncias de corrupção nos Correios e de pagamento de mesada a deputados não é motivo suficiente para que o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) eleve os juros básicos da economia brasileira em sua próxima reunião. A manutenção da taxa básica em 19,75% ao ano é a atitude mais prudente e coerente com os rumos da política econômica. Os números do Produto Interno Bruto (PIB) do 1º trimestre deste ano já mostram forte desaceleração em relação aos trimestres anteriores, o que reforça a tese de que o arrocho promovido pelo Copom já deu resultados.
O forte ajuste da taxa Selic, promovido pelo Copom desde setembro de 2004 – a taxa passou dos 16% aos 19,75% atuais, está retraindo a demanda, como queria o Banco Central. A inflação já dá sinais concretos de arrefecimento e vai convergindo para a trajetória de metas, apesar de muito dificilmente vir a alcançar o ambicioso patamar de 5,1%, fixado para este ano. Mas não nos custa lembrar que, já em diversas atas, o Copom admitiu que tenha passado a perseguir a taxa de inflação para períodos mais longos, não sendo mais tão ortodoxo quanto à execução, a ferro e fogo, da meta estipulada para este ano.
Sobre a possibilidade de a crise política afetar negativamente a economia e ser um fator desencadeador de aumento da inflação, acho muito pouco provável. O País hoje é muito mais maduro do que em crises anteriores. É evidente que alguma farpa vai sobrar para a economia, mas daí se esperar um repique mais agudo da inflação, acho uma projeção pessimista demais. Por isso, o BC deverá realmente encerrar o ciclo de alta dos juros nessa reunião de junho do Copom, mas talvez leve um tempo maior do que o esperado anteriormente para voltar a baixar a taxa.
É claro que nada nos garante que a crise atual não vá se aprofundar fortemente, visto que as eleições presidenciais se aproximam e, cada vez mais, o cenário tende a ser muito mais indefinido do que supunha o Planalto, que contava, há alguns meses, como líquida e certa a reeleição do Presidente Lula. Nesse improvável cenário, o risco-país poderia ter uma elevação perigosa e, com a piora na percepção dos investidores internacionais, haveria uma fuga de dólares da nossa economia com conseqüências que já sabemos e que já vivemos recentemente. Somente num cenário como esse, que julgo extremamente pessimista, é que o Copom voltaria a elevar a taxa Selic.
Revisão e edição: Renata Appel
Presidente do Sindicato das Financeiras dos estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, Vice-Presidente da Federação Nacional das Empresas de Crédito, Financiamento e Investimento (Fenacrefi) e Diretor da ASB Financeira
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