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Comentarista: José Arthur Assunção
Remédio eficaz, já a dosagem...

A economia brasileira vive um momento singular. Diferentemente de outros períodos de nossa história recente em que o país crescia de forma monumental durante um ou dois anos no máximo e depois entrava em longos períodos de estagnação ou mesmo de recessão, agora tudo indica que o crescimento tem a sustentabilidade que tanto o Ministro da Fazenda, Antônio Palocci, alardeia.

Segundo ele, aqueles velhos erros do passado não serão mais cometidos. O maior de todos os erros é permitir que a inflação suba um pouquinho, só um pouquinho. Por isso mesmo, para não cometer esse erro, os juros da economia brasileira são tão altos. Mas será mesmo que precisamos ser os campeões do mundo? A taxa de juros real brasileira (taxa Selic descontada a inflação) é a maior do mundo: são 13% ao ano. O Brasil tem quase o dobro de juros reais da economia do país que ocupa o 2º lugar nesse lamentável ranking.

Não estou colocando em cheque a política econômica do Governo, que, para mim, acerta bem mais do que erra. No entanto, gostaria de colocar uma pergunta no ar: será que a equipe econômica não está querendo ser mais real do que o rei? No passado, o erro foi tentar planos heterodoxos, tipo congelamento de preços ou controlar demasiadamente a taxa de câmbio. Hoje em dia, temos uma senhora taxa de juros, que parece não resolver muito o problema da inflação. Resolve até certo ponto. Até o ponto em que pode, é claro. O aumento da taxa Selic não pode fazer nada contra a pressão inflacionária da elevação das tarifas públicas, que são indexadas à inflação do ano imediatamente anterior.

O câmbio flutua livremente, ao bel prazer do mercado. Isso é saudável, mas o Governo não deveria combater as extravagâncias e os exageros do Senhor Mercado? É muito importante ressaltar que o principal responsável pela alavancagem do Produto Interno Bruto é o excelente saldo no nosso comércio exterior. Dólar a R$ 2,50 ou menos é bom para quem? Diriam alguns que é bom para baixar a inflação. Mas estranhamente eu noto que quando o dólar sobe a inflação vai atrás em passos largos como em 2002. Mas quando o dólar cai, como caiu nesses últimos 2 anos, a inflação fica quietinha como se não quisesse ver.

Pois bem, ao arrochar tanto a economia o BC, ao invés de segurar a inflação e promover a continuidade do crescimento sustentável não pode estar, nesse exato momento, colocando tudo a perder por um preciosismo além dos limites? O remédio é muito bom, sem dúvida, mas na dosagem cavalar que vem sendo administrado não poderá asfixiar a economia? É como se pretendessem combater um vírus receitando-se antibióticos.

Revisão e edição: Renata Appel


Presidente do Sindicato das Financeiras dos estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, Vice-Presidente da Federação Nacional das Empresas de Crédito, Financiamento e Investimento (Fenacrefi) e Diretor da ASB Financeira  
e-mail do autor: jala@asb.com.br
 
 

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