Crise (de valores) na saúde
Tudo pelo social ou tudo pelo seu voto? A intervenção do Governo Federal na saúde pública do Rio de Janeiro cheira mais a uma propaganda eleitoreira do que propriamente a um real desejo de solucionar um problema. Até porque o problema da saúde do Rio existe muito mais pelo descompromisso do Governo Federal do que pelo descaso dos governantes da cidade.
A mídia noticia diariamente o escândalo da saúde pública no Rio. E, na maioria das vezes, o cidadão brasileiro fica com a impressão de que existe um único culpado por essa situação: César Maia, pré-candidato e atual Prefeito da cidade. O fato é que o maior culpado é o Governo Federal, que esteve sempre ciente da situação nos hospitais cariocas e, no entanto, estranhamente, só se pronunciou agora.
No dia em que decidiu intervir nos hospitais da rede municipal do Rio, o Ministro da Saúde, Humberto Costa, já estava de posse de um relatório minucioso sobre a crise da saúde no Rio há 6 meses. Fica então a pergunta: por que se esperou tanto para iniciar a intervenção, se existem milhares de vidas dependendo do bom funcionamento desses hospitais?
A indagação nos leva a crer que, mais do que uma preocupação em resolver o caos em que se encontra a saúde carioca, o episódio está servindo como poderosa arma política contra César Maia. O Governo, sob a figura do Ministro Humberto Costa – que teve uma passagem não muito satisfatória à frente da Secretaria de Saúde de Recife – conseguiu transferir o ônus do problema para o Prefeito. A jogada do Planalto é de se tirar o chapéu, não fosse o sofrimento por que passa a população daquele município.
A quantidade absurda de pessoas lotando as filas nos hospitais da cidade se dá principalmente pela falta de recursos disponíveis nas unidades de outros municípios. É sabido que o Sistema Único de Saúde (SUS) repassa verbas insuficientes para as cidades do interior do estado. Desse modo, os prefeitos dessas cidades mais carentes se vêem obrigados a investir a maior parte do dinheiro em ambulâncias para facilitar a remoção dos pacientes para os hospitais da capital, onde supostamente os recursos são maiores. Resultado: sobrecarga no sistema, que resulta na falta de recursos materiais, de pessoal e na insuficiência no número de leitos. E isso reflete nas filas quilométricas.
A atitude do Governo em culpar o atual Prefeito do Rio pela crise na saúde pode ser explicada pela recente pesquisa divulgada pelo Ibope para as eleições presidenciais de 2006. As intenções de voto para o prefeito do Rio subiram de 5% em novembro para uma margem entre 8 e 13% em março, depois que César Maia passou a apresentar os programas de seu partido.
O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou recentemente que, este ano, sua única preocupação é governar o País. Mas o discurso do Presidente está em desacordo com as atitudes que o Governo vem tomando.
O problema da saúde na cidade do Rio de Janeiro é apenas uma conseqüência. A saúde no Brasil todo vai muito mal. Só que os interesses da população sempre são postos em segundo plano. O Governo Lula tenta uma jogada arriscada. O tiro pode sair pela culatra.
Revisão e edição: Renata Appel
Presidente do Sindicato das Financeiras dos estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, Vice-Presidente da Federação Nacional das Empresas de Crédito, Financiamento e Investimento (Fenacrefi) e Diretor da ASB Financeira
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