Bernardinho para Presidente
A economia brasileira deu um salto. Era preciso ser muito otimista para projetar indicadores econômicos tão satisfatórios nesses últimos meses. A continuar nesse ritmo, a elevação do Produto Interno Bruto (PIB) chegará facilmente aos 5% este ano. Mas de nada vai adiantar se, no ano que vem, esse crescimento não se sustentar.
A pergunta é então: o que fazer para darmos continuidade ao crescimento do País? Desde que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) presenteou-nos com a divulgação do PIB de 5,7% referente ao 2º trimestre deste ano, essa pergunta ronda a cabeça de muita gente no País, inclusive a minha.
Mas nada como um final de semana tranqüilo. De cabeça fria, a resposta veio naturalmente: temos urgentemente que eleger para a Presidência da República o Bernardinho, técnico da seleção brasileira de vôlei masculino. Como eu não havia pensado nisso antes?
Você pode até achar engraçado, mas de engraçado, meu amigo, não tem nada. A situação da economia brasileira é, nesse momento, semelhante a de vários outros momentos de nossa história recente, quando o crescimento do PIB veio forte.
Diriam alguns que muita coisa mudou. E mudou mesmo. Dentre tantos números positivos, o Brasil hoje faz superávits primários invejáveis, o que proporciona a diminuição da relação dívida/PIB e a conseqüente queda do risco-país, e tem uma balança comercial altamente positiva, com as exportações batendo recordes sucessivos - tudo isso com inflação sob controle.
Não restam dúvidas de que o crescimento do PIB acontece hoje num ambiente muito mais saudável do que em outras ocasiões. Mas problemas existem. E muitos deles somente são vistos agora, devido à perfeição com que foram atacados os problemas macroeconômicos. Os principais entraves hoje a serem atacados são os de base mesmo, aqueles chamados microeconômicos.
E onde entraria o Bernardinho nessa história? Bem, a tendência natural dos governos é que, a partir de uma volta por cima como a de agora, passe a comemorar e crer que quase tudo está no lugar e o que ainda não está, irá para o seu devido lugar pela providência divina.
Bernardinho não pensa assim. Cansei de vê-lo logo após vitórias fantásticas da nossa seleção de vôlei e, até mesmo, após conquistas de títulos importantes, dizer que aquilo tudo já era passado e que muito trabalho havia pela frente. Ele tinha uma meta: as Olimpíadas.
Pois bem, ganhamos também o torneio de vôlei olímpico. Bernardinho comemorou bem mais do que nos outros títulos, mas lembrou que, para se manter na condição atual, o trabalho precisa continuar cada vez mais intenso. A cobrança, segundo ele, será ainda maior, daqui em diante, por se tratar de uma seleção que ganha tudo.
Seguindo os passos de Bernardinho, é hora de o Brasil fazer o dever de casa por completo. O Governo fez muito bem a primeira parte. Os ajustes na economia deram resultado. O País hoje tem credibilidade. Ninguém duvida que vai honrar seus compromissos. A segunda parte do dever é que é a mais complicada.
O Brasil sempre alternou ciclos de forte crescimento com ciclos muito fracos ou mesmo de recessão. Justamente porque nunca foram atacados problemas básicos como, por exemplo, os de infra-estrutura e de acesso ao crédito, que tanto atrasam a vida de nossas empresas.
Vem aí as eleições municipais. É provável que o PT vença em muitas capitais e faça um número bastante superior de prefeituras do que em 2000. Mas isso quase sempre é ruim em se tratando do partido do Governo. Diante de uma vitória estrondosa parece que tudo está muito bem, obrigado. É aí que o barco começa a afundar.
Mas se o Governo Federal seguir o exemplo de Bernardinho, continuar a se empenhar como tem feito até hoje e partir, com firmeza, para resolver os problemas microeconômicos, o crescimento não será de apenas um ou dois anos. Será por muitos anos.
Revisão e edição: Renata Appel
Presidente do Sindicato das Financeiras dos estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, Vice-Presidente da Federação Nacional das Empresas de Crédito, Financiamento e Investimento (Fenacrefi) e Diretor da ASB Financeira
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