A expectativa do crescimento
Como fazemos em vários momentos das nossas vidas, me peguei, esses dias, relendo coisas que escrevi nos últimos anos. Chamou-me atenção, em particular, um artigo que redigi dois anos atrás, no auge da crise econômica que antecedeu a eleição do Presidente Lula.
Vivíamos, então, o auge da crise de confiança no País. Naquele momento tão delicado, o futuro da economia brasileira era incerto. O futuro do Brasil era sombrio.
O título do artigo era “A expectativa da tragédia”. Li e reli. É muito bom relembrar as nossas vivências principalmente quando constatamos avanços significativos.
No texto, eu dizia: “Um clima de desconfiança ronda o País. A questão é se o Brasil irá ou não honrar os seus compromissos, no próximo ano, com a chegada de um novo governo. O pior é que a crise da dívida já se instalou no atual, tão acreditado pelo mercado. É a expectativa da tragédia, que causa a tragédia antecipadamente sem nem se saber se ela existirá propriamente no futuro”.
Pois bem, a tese que defendi continua atual. Sigo acreditando em tudo que escrevi naquela ocasião. Sou contundente então ao afirmar que vivemos agora a situação exatamente inversa. Hoje, a expectativa do crescimento gera crescimento por si só, sem nem mesmo termos certeza de que o futuro será tão promissor assim. Mas pergunto: é melhor a expectativa da tragédia ou a do crescimento? Eu fico, sem dúvida, com a expectativa do crescimento.
No entanto, quando escrevi sobre a tragédia anunciada, ressaltei que havia um exagero nos indicadores econômicos, que geravam distorções graves. Não traduziam a realidade da economia brasileira, que estava longe de ser ruim. Se não era excelente, era, pelo menos, boa.
Avanços significativos haviam sido conquistados. Desde a abertura do País, no Governo de Fernando Collor, passando pelo Plano Real, pelas privatizações, pela Lei de Responsabilidade Fiscal, pela liberação do câmbio, mesmo que tardia, e finalmente pelo estabelecimento de metas para a obtenção de elevados superávits primários e os recordes crescentes da balança comercial.
Na época, mesmo com todos esses avanços, as agências internacionais puseram em dúvida as intenções de um futuro governo de esquerda. Elevaram o risco Brasil à estratosfera - o indicador chegou próximo a 2.500 pontos - a Bolsa de Valores de São Paulo despencou aos 8 mil pontos e já não dispúnhamos mais de linhas de crédito no Exterior. O País estava paralisado, atônito, mas nada demais acontecia. Eram somente dúvidas que pairavam no ar. Apesar de indicadores macroeconômicos saudáveis, a crise de confiança, se persistisse, conduziria ao calote da dívida. Era a expectativa da tragédia.
Hoje, a situação econômica ainda está longe de ser excelente. Mas comparando-se com o cenário descrito acima, avançamos muito. O maior avanço, entretanto, foi a persistência com que o novo Governo apostou no modelo econômico, defendendo-o com unhas e dentes.
Apesar de toda a confiança de hoje, sabemos que muitas arestas precisam ser aparadas. Muitos gargalos precisam ser sanados para que o crescimento seja contínuo. Os setores de infra-estrutura carecem de regras mais claras para atrair os investidores. A carga tributária é elevada demais e os juros ainda precisam baixar bastante. Muitos entraves põem em risco a sustentabilidade do crescimento.
A tendência, no momento, é olhar um horizonte promissor. A expectativa do crescimento gera crescimento por si só. Isso vai acontecer sempre, assim como expectativas de tragédias sempre anteciparão as tragédias. As decisões de compra tanto de empresas quanto de consumidores são tomadas mediante expectativas.
É hora então de todos, Governo e sociedade, aproveitarmos o bom momento e nos fixarmos nos problemas ainda existentes para que a economia deslanche por muitos anos. Os entraves não são poucos. Mas o momento certo de atacá-los, um a um, é hoje, agora.
Ainda bem que a tragédia, tão temida há dois anos, não se consumou. Mas devemos fazer tudo que estiver ao nosso alcance para que a expectativa do crescimento gere realmente crescimento - forte e por muitos anos.
Revisão e edição: Renata Appel
Presidente do Sindicato das Financeiras dos estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, Vice-Presidente da Federação Nacional das Empresas de Crédito, Financiamento e Investimento (Fenacrefi) e Diretor da ASB Financeira
e-mail do autor:
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