O vice e os juros
Nesses dias em que o País discute de forma tão calorosa a taxa de juros da economia, uma personalidade sobressai: ninguém menos do que a segunda pessoa mais importante da República, o Vice-Presidente José Alencar. Quem o vê concedendo entrevistas e discursando custa a acreditar que se trata de um integrante do Governo, muito menos de alguém que assume a presidência quando Lula se ausenta do País.
José Alencar bate, sem piedade, na política econômica do seu próprio governo. Para ele, os juros praticados pelo Banco Central do Brasil não são apenas altos ou abusivos, são caso de polícia. Conversando com analistas de mercado e investidores em potencial, nacionais e estrangeiros, constatei o perigo que José Alencar representa para o País.
Dos 600 pontos em média do risco Brasil, creio que, pelo menos, uns 200 pontos se devem ao comportamento de José Alencar. Por enquanto, ele apenas reclama. Mas um dia poderá ser chefe do executivo. Os investidores, que não são bobos, encontram assim mais um motivo para adiarem os seus projetos no País.
O Presidente Lula impressiona por sua postura centrada e pela defesa incondicional da política econômica. Mas o leitor já imaginou se, por algum motivo, Lula for impedido de exercer o seu mandato até o fim? Um fato como esse não seria novo em nossa história. Quem assumirá será ninguém menos que José Alencar. Se o Vice puser em prática o que prega em seus discursos, principalmente em relação às taxas de juros, corremos um sério risco de desestabilização econômica, com fuga de capitais e repique da inflação.
Apesar de todas as declarações do Vice-Presidente, não vejo possibilidade de queda dos juros no curto prazo. O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) se reúne mais uma vez e tudo indica que os juros permanecerão em 16% ao ano, devido à elevação dos juros nos Estados Unidos e à possível alta também na Europa.
Contrariando os argumentos de José Alencar, a política econômica vem mostrando resultados. O Brasil nunca viveu uma conjuntura econômica tão satisfatória quanto a atual. Os fundamentos estão sólidos e o País cresce há vários meses. O crescimento se dá em um ambiente de inflação sob controle, com a balança comercial apresentando superávits crescentes. Não é hora de mexer nas engrenagens.
É evidente que juros menores propiciam maior crescimento. Mas o Brasil não pode mais viver em ciclos esporádicos. É hora de o País crescer de forma contínua e sempre a taxas maiores.
Devemos perseguir e manter a estabilidade. Agora, é aparar as arestas. Baixar os juros não é a prioridade do momento nem mesmo aconselhável. A conjuntura internacional não recomenda. Resta-nos acompanhar e lamentar as inúmeras declarações do nosso Vice-Presidente da República nesses dias de Copom.
Revisão e edição: Renata Appel
Presidente do Sindicato das Financeiras dos estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, Vice-Presidente da Federação Nacional das Empresas de Crédito, Financiamento e Investimento (Fenacrefi) e Diretor da ASB Financeira
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