Avaliação pós-ocupação: métodos para qualificar os espaços e satisfazer usuários
Se você tem medo de saber se o resultado do seu projeto foi bom, talvez você precise de terapia. Nada mais saudável do que crescer sobre o executado, reconhecendo acertos e desacertos. Nem sempre o que se fez na boa intenção resultou adequado. Por que não funcionou? Saber os motivos é um novo aprendizado que enriquecerá o próximo trabalho.
A Avaliação Pós-Ocupação (APO) é uma ciência nova. Iniciou nos EUA, em meados do no século XX. No Brasil, ainda é pouco conhecida, mas já existem diversos grupos atuando em várias frentes com equipes multidisciplinares que se mobilizam com um objetivo real: balizar novos projetos e qualificar os ambientes a partir das necessidades dos seres e do conhecimento dos níveis de satisfação dos usuários.
Robert Sommer, um dos pioneiros no estudo comportamental dos seres em seus ambientes, iniciou suas pesquisas em zoológicos, quando descobriu que as grades reduziam o tempo de vida dos animas, e que eles precisavam de seu habitat. O homem é quem devia estar contido enquanto os visitava. Isto se pode ver na exuberância e felicidade dos animais do Pampa Safari, em Taquara/RS, enquanto os visitantes se deslocam de veículo através do seu ambiente natural. Sommer também pesquisou aeroportos, hospitais, edifícios habitacionais e escolas. Observou a interação do indivíduo com o espaço criado e se a disposição do mobiliário favorecia o comportamento das pessoas.
Outra de suas pesquisas demonstrou que em um bairro onde ocorria muita violência, os habitantes de altos edifícios possuíam comportamento mais agressivo que os moradores de um edifício baixo. Os edifícios altos foram demolidos.
Em relação às escolas, ele afirmou que não pretende mudar professores que têm a sua idade, pois são raros os que mudam após os 40 anos. Ele pesquisa para o futuro, para o novo professor, o que interage com os alunos e o espaço, deve suprir as necessidades de ambos. E quais são elas? Só os usuários podem responder. Seu trabalho demonstrou que os projetos de escolas tinham formatação diferente da composição tradicional: mesa em um lado e as classes distribuídas em linhas paralelas.
Uma APO pode ser feita através da aplicação de uma série de métodos avaliativos, através dos quais analisa-se o processo construtivo, o comportamento do usuário, a funcionalidade, a acessibilidade, as técnicas empregadas, os níveis de conforto, sempre considerando o grau de satisfação dos ocupantes dos espaços. A arquitetura, como um dos envolventes do ser humano e abrigo para qualquer atividade, é também responsável por parte do comportamento. Formas, profundidade, cores, conforto térmico, acústico e lumínico, escalas, fazem parte do processo de criação de um projeto, que quando concretizado, interfere profundamente no bem-estar das pessoas.
Nesses tempos de Internet, ninguém mais é o dono da verdade e as alterações espaciais têm que acompanhar o perfil dos usuários, que varia de acordo com a situação. Cada caso é um caso e não se pode perder a noção do todo, de forma holística.
Com a APO, pode-se descobrir onde há problema. Mas, para tanto, tem-se que desenvolver o espírito crítico e aberto a mudanças. Quantos investimentos não teriam ido para um buraco negro se, além dos estudos de viabilidade econômica, uma APO tivesse sido feita? O envolvimento do usuário em decisões que antes só cabiam aos profissionais executores, sabedores do todo e de tudo porque tinham um canudo na mão, faz a diferença.
Citando exemplos, pode-se verificar até que ponto a luz refletida em um piso de granito ocasiona fadiga visual aos usuários. Qual a influência biológica e psicológica de uma luz mal posicionada? Que cores podem estimular os usuários e, até que ponto, elas podem prejudicar? Será que o espaço é usado em todo o seu potencial? O ambiente é satisfatório e produtivo ou induz à depressão? O que poderia melhorar para dar mais satisfação aos usuários? Pessoas satisfeitas produzem mais, isto já foi comprovado. Como interagir para qualificar?
A APO chegou para ficar, para reduzir custos de investimento, para aumentar nossa produtividade. Investimentos de porte podem ser beneficiados com o resultado de pesquisas ao balizar novos projetos que resultem num maior grau de satisfação dos usuários, assim como pequenos projetos podem ser reformulados após uma pesquisa. Se o projetista não tem tempo para obter o feed-back de seu trabalho, profissionais de APO fazem isto, pois é grande a sua aplicabilidade: desde pesquisas urbanas até a pesquisa de pequenos espaços ou elementos.
Em recente Seminário Internacional no Rio de Janeiro, arquitetos, engenheiros, artistas plásticos, designers, geógrafos, agrônomos, psicólogos e filósofos reuniram-se para discutir a Psicologia e Projeto do Ambiente Construído. A multidisciplinaridade demonstrou um rico universo na área de pesquisa e atuação - ambos preocupados com a qualidade de vida do planeta e conscientes de que uns precisam dos outros para que o olhar seja mais abrangente e, a solução, mais adequada.
Profissionais que coordenam o processo em uma APO, além de uma premissa ética e de competência, necessitam de experiência no processo de construção dos espaços e habilidade para tratar com o ser humano. Uma APO só têm a acrescentar, pois cada vez mais, nesse processo globalizante, a responsabilidade pela qualidade de vida das próximas gerações depende do agir em conjunto.
Revisão e edição: Renata Appel
Escritora, Arteterapeuta, Mestre em Arquitetura, Consultora.
Site: www.sanaarquitetura.arq.br
e-mail do autor:
marilice.costi@sanaarquitetura.arq.br
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