Quando crescer é um problema
Muitos dos problemas que afligiram principalmente os países emergentes, nos últimos anos, foram atribuídos ao fraco desempenho da economia americana. Pois bem, os Estados Unidos da América voltaram a ser a locomotiva que todos no mundo esperam.
O mundo todo então deveria estar aliviado com o crescimento acelerado e a conseqüente recuperação do emprego nos Estados Unidos, não é mesmo? Mas não é bem isso que vem ocorrendo.
No Brasil, por exemplo, a Bolsa de Valores de São Paulo vem descendo a ladeira dia após dia; a moeda nacional, perdendo valor e; o risco-país, subindo perigosamente.
A conseqüência, em médio prazo, pode ser um repique da inflação, novas dificuldades para a obtenção de linhas de crédito no Exterior e mais trabalhosa a rolagem da dívida brasileira.
Mas, vamos entender um pouco melhor o cenário econômico antes que tudo isso venha a parecer um enorme contra-senso...
O crescimento da economia americana aliada ao aumento do emprego reacende o temor pela volta da inflação naquele país. É nessa hora que a política econômica precisa ser mais severa. Por isso, o Federal Reserve, banco central americano, já disse, através de seu Presidente, Alan Greenspan, que vai elevar os juros internos do país. Hoje, estão em 1% ao ano.
Resultado: alvoroço em todo o mundo, principalmente nas economias mais frágeis, como a nossa. Sendo a economia americana reconhecida como a mais segura do mundo, a tendência é que haja uma realocação de capitais a partir da subida dos juros americanos.
O raciocínio é o seguinte: é preferível ganhar um pouco menos em uma economia forte a se aventurar nas economias emergentes. É desse modo que se comporta o capital volátil. De uma hora para outra pode desestabilizar um país.
Uma volatilidade nos mercados nunca é boa, mas seria bem pior se acontecesse devido a uma crise na economia mundial. Já vimos isso várias vezes nos últimos anos. A conseqüência seria um aumento de juros nos países emergentes. Um verdadeiro golpe nas expectativas de crescimento.
Chamou-me atenção, no entanto, uma entrevista concedida pelo Ministro da Fazenda, Antônio Palocci, na qual comentou sobre a elevação dos juros americanos. Disse Palocci que a crise atual é advinda de uma excelente notícia: o crescimento americano. Segundo o Ministro, o momento seria apenas de transição.
Eu concordo com Antônio Palocci e vou mais além: os juros americanos estão nos níveis mais baixos em 40 anos. Quando aumentarem, não vai ser nada devastador assim. Para chegar a taxas históricas, entre 4% e 6%, ainda vai demorar algum tempo.
Estamos diante de uma nova crise financeira? Sim, estamos. Mas grande parte dela se deve a um fato positivo: o comportamento da economia dos Estados Unidos. Depois que os capitais se acomodarem, o mundo todo vai entender que o que agora se apresenta como problema pode vir a ser a solução no futuro.
Revisão e edição: Renata Appel
Presidente do Sindicato das Financeiras dos estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, Vice-Presidente da Federação Nacional das Empresas de Crédito, Financiamento e Investimento (Fenacrefi) e Diretor da ASB Financeira
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