Vivenciando cores
Diversas pessoas me perguntam qual a cor mais adequada para que a pessoa sinta conforto em um ambiente. Difícil responder, apesar de já ter estudado muito sobre cores e sua psicodinâmica. A bibliografia é extensa e muita pesquisa já foi feita. Mas nem sempre seus resultados são confiáveis, especialmente, quando não se conhece o método empregado na pesquisa.
Inicialmente, qualquer que seja a cor, ela depende da iluminação (IRC, temperatura de cor), das dimensões do ambiente, de outros elementos coloridos, das atividades que irão ocorrer ali e da idade do usuário do espaço.
Mahke & Mahke e Birren oferecem em seus livros uma série de informações considerando o tipo de ambiente; relatam pesquisas. Aqui no Sul, temos os livros de Simão Goldman, autor de duas obras sobre cor, nos quais estão ricas informações. Infelizmente, não encontramos as fontes de sua pesquisa que, com certeza, ele deve ter acessado.
Todos sabemos que o verde e o azul são cores que tranqüilizam. Mas é a natureza a fonte desse resultado: céu e mar azuis; o verde da natureza. Parece óbvio, mas dentro destas cores existe uma infinidade de tons que podem ser aceitos ou não pelos usuários. Vai depender da associação que as pessoas fazem. As cores ditas “quentes” cansam, fecham, agitam, irritam, enjoam, mas quem não achou maravilhoso a quebra do paradigma das cores na década de 70 com as cores da tropicália? O modismo também interfere nas relações com as cores.
A composição de cores em um espaço pequeno, afirmam os especialistas, que para dar amplitude e parecerem maiores, deve ser monocromática. Mas que monotonia! Vejamos os filmes do Almodóvar e nos encantaremos com as cores das cenas de interiores. Culturas diferentes aceitam e utilizam as cores conforme suas tradições. É o que também podemos encontrar no Oriente, onde o vermelho é fundamental. Aqui, com nosso sangue latino, quente e agitado, não suportaríamos tanta cor vermelha saturada.
A cor tem relação com o conforto térmico. Ambientes frios requerem cores mais vibrantes para nos dar sensações mais amenas; ambientes quentes, como uma cozinha, pedem cores frias.
Além disso, as cores escuras em mobiliário nos passam a sensação de que ele é maior do que realmente é e mais pesado. Operários que carregam um armário preto sentem mais cansaço do que os que carregam um armário branco. Coisas do nosso cérebro!
Dependendo da estação do ano e da orientação solar dos ambientes, as cores podem auxiliar ou não na iluminação. Áreas na orientação sul têm luz difusa e é para onde geralmente se direciona as cozinhas. Áreas claras refletem mais luz que as escuras, que absorvem. Também a localização da superfície pode interferir. Forros escuros são diferentes de forros claros; lâmpadas fluorescentes desenham a luz diferentemente das incandescentes. Por isso, me incomoda tanto ver as áreas condominiais com antigos pontos de luz para lâmpadas incandescentes exporem um bulbo com fluorescência com foco a descoberto. A lâmpada tem relação com a luminária, e isto pouco é pensado, porque é arquitetura da luz - coisa para profissionais.
Mas tudo vai passar pelo nosso sistema visual e neurológico, onde são determinadas as nossas percepções. Vivenciamos cores e somos estimuladas com luz a todo momento, seja na área urbana, quando passamos de uma área sombreada para uma ensolarada, seja nos ambientes edificados ou nas propagandas dos outdoors.
As cores nas edificações nem sempre vêm sendo utilizadas com critério. Cores escuras absorvem radiação solar e transmitem mais calor para o interior das edificações que as claras, que refletem. Alta absorção de calor pode causar patologias nos elementos arquitetônicos, especialmente quando estes são formados por materiais diferentes numa mesma superfície. Dilatações diferentes criam trincas entre os elementos. Daí a necessidade de uma técnica adequada no momento de projetar.
No nosso clima, teríamos que ter casas claras no verão e casas escuras no inverno. Como isto não é possível, podemos tirar partido de brises, pergolados, vegetação caduciforme e fazer um trabalho paisagístico no entorno. Se medirmos a temperatura de uma superfície azul cobalto e de uma marfim, na mesma orientação solar, teremos uma diferença de 9ºC, sendo menor a cor marfim. Passeios de basalto no sol do meio-dia podem chegar a 47 graus centígrados. Os materiais e suas características, entre elas, a cor, devem ser usados com critérios.
Além disso, está na hora de termos um olhar na cidade mais relacionado com sua estética (forma, volume e texturas), do que apenas com cores que “enfeitam” porque ali nada existe de arquitetura.
Usar cores sem critério, sem considerar como elas vão interferir no elemento construído, é a mesma coisa que valorizar as grades que vemos espalhadas por todos os lugares, em detrimentos do elemento maior que é a edificação que elas devem proteger.
Por isso, respondo a todos que me perguntam: depende do caso, depende da pessoa, depende do espaço, depende da atividade, depende do profissional que fizer o projeto.
Bibliografia
BIRREN, Faber. Ligh Color and Environment. Pennsylvania: Van Nostrand Reinhold, 1988, 2 e.
COSTI, Marilice. A influência da luz e da cor em salas de espera e corredores hospitalares. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002.
MAHNKE, Frank H. Color, environment, and human response: an interdisciplinary understanding of color and its use as a beneficial element in the Design of the Architectural Environment. New York: John Wiley & Sons. 1996. 234 p.
MAHNKE, Frank H.; MAHNKE Rudolf H. Color and Light in Man-made Environments. New York: Van Nostrand Reinhold, 1993. 140 p. il.
Revisão e edição: Renata Appel
Escritora, Arteterapeuta, Mestre em Arquitetura, Consultora.
Site: www.sanaarquitetura.arq.br
e-mail do autor:
marilice.costi@sanaarquitetura.arq.br
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