Um tango desafinado
De solavanco em solavanco: assim é escrita a história recente da nossa vizinha Argentina. Menos mal para o Brasil que o conhecido “Efeito Tango” parece já não ser sentido na intensidade de anos atrás. Quando alguma crise afetava a Argentina, imediatamente refletia no mercado financeiro brasileiro. Hoje, isso mudou. Os investidores internacionais já reconhecem que a capital brasileira é Brasília, e não Buenos Aires.
A última do Presidente argentino, Néstor Kirchner, foi bater de frente com o Fundo Monetário Internacional Internacional (FMI), ameaçando não pagar a parcela da dívida que vencia junto ao organismo. Mas tudo não passou de mais uma bravata populista de seu governo, tão querido, até o momento, pelo povo portenho. Ao apagar das luzes, a Casa Rosada acertou tudo direitinho com o Fundo. E que seja sempre assim. O Brasil não seria afetado diretamente por mais esse calote argentino, mas alguma farpa poderia sobrar para nós.
Se com os organismos de crédito a Argentina tem procurado cumprir seus compromissos, mesmo que aos trancos e barrancos, a situação dos demais credores não é das melhores. Kirchner decretou que o país pagaria apenas 25% de sua dívida junto a estes. Ou melhor, renegociaria em suaves prestações esses 25% e, simplesmente, esqueceria os outros 75% - um dos maiores calotes da história contemporânea.
O povo argentino aplaudiu de pé a decisão populista de seu Presidente. Mas os efeitos da decisão se mostraram desastrosos. Recentemente, a Justiça americana bateu o martelo e determinou o embargo de dois imóveis portenhos nos Estados Unidos. A medida foi tomada para atender a uma solicitação de um fundo de investimentos, ao qual a Argentina deve US$ 172 milhões. Mas essa é somente a ponta do iceberg. Novas ações contra o governo argentino vão certamente ser impetradas. Dentre os próximos bens a serem embargados encontra-se, inclusive, o avião presidencial.
A posição tomada pela Casa Rosada não ajuda em nada à atração de novos investimentos, tão necessários ao país. Muito pelo contrário: somente os afasta, e ainda prejudica todos os países emergentes, inclusive o Brasil, que vem pagando religiosamente seus compromissos. Já pensou se os credores argentinos amolecem e a moda pega? Os países devedores podem se ver no direito de não pagar também, Resultado: bye bye investidores estrangeiros.
Para o Brasil, a dívida da Argentina pode até ser renegociada, mas o calote, de 1%, que seja, não pode ser admitido.
Revisão e edição: Renata Appel
Presidente do Sindicato das Financeiras dos estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, Vice-Presidente da Federação Nacional das Empresas de Crédito, Financiamento e Investimento (Fenacrefi) e Diretor da ASB Financeira
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