Olhar para frente
Não há pecado algum em utilizarmos o retrovisor. Aprender com os erros é algo bastante inteligente, que nos permite usar uma referência anterior para não cairmos em uma mesma armadilha posteriormente. Melhor ainda, no entanto, é, além do retrovisor, aprendermos a utilizar o farol, que nos permite antever situações que possam nos desviar do caminho certo, reduzindo as chances de erro.
Pois bem, dias atrás, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou o resultado do PIB (Produto Interno Bruto) do 3º trimestre deste ano: 0,4%. O número chocou a gregos e a troianos e também a nós, brasileiros. Cabe-nos, contudo, ao invés de ficarmos pessimistas quanto ao futuro, dar graças a Deus que o pior, pelo menos ao que parece, já passou.
Vamos entender duas coisas. Primeiramente, esse resultado do PIB, apesar de ter sido inesperado, reflete um momento em que a economia brasileira viveu um dos maiores, senão o maior arrocho de toda a sua história. E era preciso. O Governo do PT precisava mostrar à sociedade brasileira e aos organismos internacionais que não veio para brincar nem para dar soluções mágicas a problemas tão sérios.
Em segundo lugar, é preciso enfatizar, deixar bem claro, que esse número do PIB reflete o passado, apenas o passado. A divulgação desse dado apenas contamina a franca recuperação que todos os dados macroeconômicos indicam para esse final de ano e para todo o ano de 2004.
É muito mais interessante então usarmos o farol agora, tentarmos visualizar situações futuras de gargalos, que normalmente freiam o avanço da nossa economia. O último gargalo de que me lembro foi o racionamento de energia, que estancou o crescimento iniciado em 2000. O ano de 2001 foi o caos.
Um outro gargalo é a nossa eterna fragilidade diante de crises externas. Já não chegam as nossas do dia-a-dia? Volta e meia, somos pegos de surpresa com novidades desagradáveis vindas dos quatro cantos do mundo. E sempre precisamos de muito jogo de cintura para contornar os obstáculos.
Por isso, para evitarmos novos erros, voltemos ao retrovisor para entendermos as causas do fraco desempenho no 3º trimestre.
O motivo do baixo crescimento do PIB, por incrível que pareça, foi a forte queda na produção agropecuária - logo ela que foi responsável por grandes altas nos trimestres anteriores.
A previsão para o PIB de 2003 já deu muito o que falar. O Ministro do Planejamento, Guido Mantega, chamou o titular da Secretaria de Política Econômica, Marcos Lisboa, de mal humorado. Lisboa havia previsto alta de apenas 0,4%. Mantega ainda acredita em 0,8%. Já o Presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, aposta em 0,6%.
Mas, depois do anúncio do PIB do 3º trimestre, é bem capaz que todos errem. Pode ser que o crescimento de 2003 fique bem próximo de zero.
O Brasil deverá ter, este ano, o menor crescimento econômico desde 1998, quando, devido à crise da Rússia, o PIB ficou em míseros 0,1%. Mas, para 2004, a confiança na retomada do crescimento se mantém. A projeção para o PIB é de 3,5% a 4%.
Henrique Meirelles, o todo-poderoso defensor da moeda, não cansa de reafirmar sua crença: o Governo está criando as condições de promover o crescimento sustentado da economia, evitando as bolhas de crescimento observadas nos governos passados. E é verdade. Vejo pouquíssimos erros na condução da política econômica. Não temos como negar que o ajuste na economia feito pelo Governo neste ano teve reflexos negativos. E como teve! Mas foi um mal necessário para permitirmos vislumbrar o tal do crescimento sustentável. E não nos custa reafirmar: apesar de o resultado do PIB do 3º trimestre ter vindo tão abaixo do esperado, não existe sinalização de mudanças na trajetória da economia.
A taxa de juros já caiu 9% nos últimos cinco meses. Os efeitos benéficos, com certeza, irão aparecer. Ao olharmos para frente, como disse o Ministro Palocci, temos que ser otimistas.
Revisão e edição: Renata Appel
Presidente do Sindicato das Financeiras dos estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, Vice-Presidente da Federação Nacional das Empresas de Crédito, Financiamento e Investimento (Fenacrefi) e Diretor da ASB Financeira
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