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Comentarista: José Arthur Assunção
FMI: amor e ódio

São US$ 30 bilhões para efetivamente salvar a pátria. O Fundo Monetário Internacional (FMI) fechou um acordo inédito com o Brasil. É o maior desembolso, até hoje, do organismo multilateral para o país e o mais importante é que não seremos obrigados a cumprir novas exigências. Lembro daquele ditado que diz que "quando a esmola é grande, o santo desconfia".

Mas o fato é que o mundo não podia deixar o Brasil quebrar. Só Deus sabe o que aconteceria se a crise brasileira chegasse, um dia, ao ponto em que chegou a da Argentina. Já existe um sobressalto mundial ante a inércia da economia americana, que vem patinando há algum tempo. A chamada locomotiva do mundo não está empurrando mais. Imaginem se o Brasil decreta uma moratória. Poderia ser uma quebradeira, em efeito dominó, pelos quatro cantos do planeta.

Parece então que, enfim, os Estados Unidos acordaram e decidiram dar uma mão aos seus irmãos do sul. Não que George W. Bush e os seus estejam com compaixão de brasileiros, argentinos e uruguaios. O fato é que estão com muito medo dos efeitos globais de deixar importantes economias latino-americanas a ver navios. O resultado foi o vultuoso empréstimo ao Brasil, a ajuda dada ao Uruguai e a perspectiva de um acordo, mais rapidamente do que se imaginava, com a Argentina.

Creio que ninguém, em sã consciência, pode ser contra o novo acordo do governo brasileiro com o FMI. A história brasileira recente apresenta um componente de amor e ódio intenso nos últimos 20 anos. Desde que o então ministro do Planejamento, Delfim Netto, iniciou as primeiras negociações com o Fundo Monetário em 1982, as pessoas ou são contra ou são a favor. Ninguém fica indiferente quando se fala de FMI.

Mesmo que não se saiba o sentido da sigla, as três letras despertam geralmente um ódio exacerbado do brasileiro. Mas, de uns tempos para cá, tem gente dizendo que é bom. O leitor então precisa saber se esse novo acordo trará benefícios ou malefícios ao Brasil.

No curto prazo, não restam dúvidas de que o acordo, o maior de todos os tempos do Brasil com o organismo, trará mais segurança para que o país passe, com folga, pela sempre turbulenta época de eleição. O dólar não vai estar mais pressionado, o risco-país vai desabar, a bolsa vai ter melhor desempenho e até os juros poderão cair.

Tudo isso porque a confiança será restaurada. O que disserem mais do que isso será pura falta de visão ou unicamente vontade de desestabilizar a economia. Não acho que os candidatos oposicionistas irão abraçar o acordo desde já, mas também não irão bater nele. Afinal, US$ 24 bilhões estarão disponíveis para o próximo presidente. E quem não quiser essa proteção adicional para passar incólume pelo primeiro ano de governo só pode estar brincando.

O que realmente importa é que o novo acordo, como ressaltei, é o de maior pujança já feito pelo FMI com o Brasil. Mostra algo muito importante: o mundo não quer e não pode deixar o Brasil quebrar. Resta agora, aos nossos governantes, tanto o atual quanto o próximo, avançar nas reformas e criar uma base que se sustente no futuro sem as incertezas atuais. Não podemos ficar sempre tendo que fechar acordos às pressas com o FMI para controlar crises. Agora a hora é de respirar e ficar atento na hora do voto em 6 de outubro.

Revisão e edição: Renata Appel


Presidente do Sindicato das Financeiras dos estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, Vice-Presidente da Federação Nacional das Empresas de Crédito, Financiamento e Investimento (Fenacrefi) e Diretor da ASB Financeira  
e-mail do autor: jala@asb.com.br
 
 

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