As “várias” taxas de juros
Antigamente, o termo inflação não saía da boca do povo. De um tempo para cá, a taxa de juros passou a ser a menina-dos-olhos da Economia. Muita gente, no entanto, tem dúvidas sobre os aspectos que influenciam na elevação ou na diminuição das taxas de juros. E não é para menos. Afinal de contas, o assunto é por demais complexo. Mas vamos tentar entendê-lo. Afinal, mexe com o nosso bolso.
Primeiramente, vamos considerar os juros básicos da economia, aqueles que são ditados mês a mês pelo Banco Central do Brasil. Os juros básicos ou taxa Selic, que é o termo técnico, é o principal instrumento que o BC tem em mãos para fazer política monetária, que nada mais é do que defender a moeda, o nosso real contra a inflação, o imposto mais cruel pago pela sociedade.
Ultimamente, convivemos com uma taxa Selic bastante elevada para conter a inflação, que subiu muito no fim do ano passado. Com a inflação já sob controle, o Banco Central vem diminuindo gradativamente os juros.
O ataque à inflação com a utilização dos juros altos foi bastante eficaz como já vimos. No entanto, um efeito colateral dessa política é a recessão por que passamos, determinando uma elevadíssima taxa de desemprego. E o problema do desemprego é sério. Necessita de ações urgentes. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), só de jovens desempregados no País são mais de 3 milhões - representam quase a metade do número total de desempregados.
Mas, à medida que as amarras vão se soltando, a tendência é de crescimento da economia. Como disse o Presidente Lula, o pior já passou. Nada mais de vacas magras. E a melhora foi em grande parte possível graças à política econômica restritiva do Governo. A taxa de juros não é estipulada por uma mágica nem por maldade das autoridades, que não querem ver o País crescer - muito pelo contrário. É um instrumento importante que todo governo responsável tem em mãos para utilizá-lo da melhor maneira para o país.
Vamos falar agora sobre os juros cobrados ao consumidor, aqueles de bancos e financeiras. Essa taxa é composta por vários fatores, por isso é mais alta que a taxa Selic do Banco Central.
A formação dos juros ao consumidor leva em conta não só os juros básicos da economia, mas também a taxa de inadimplência, os custos administrativos, a cunha fiscal, que são os tributos e impostos, além do spread - a remuneração das instituições financeiras.
Não existe um fator único para a queda dos juros ao consumidor. É um conjunto de fatores. A economia vem entrando nos eixos. Com isso, existe mais confiança por parte dos investidores e consumidores. A tendência, então, é que cresça a demanda por crédito e caia a inadimplência. Com menos inadimplência, mais os juros caem, e assim por diante. É um círculo virtuoso.
É bom que esse tão esperado “espetáculo do crescimento” realmente aconteça e seja sustentável, porque temos uma missão importante pela frente: reverter a injusta concentração de renda verificada no Brasil no século XX. Nesse período, segundo o IBGE, o país se industrializou e o Produto Interno Bruto aumentou nada menos que cem vezes. Enfim, o chamado "bolo" cresceu. O que deveria ser motivo de muita comemoração virou motivo de vergonha. A concentração de renda aumentou muito. Separou ainda mais ricos de pobres. Se, em 1960, os 10% mais ricos tinham uma renda 34 vezes superior aos dos mais pobres, no fim dos anos 90 essa diferença aumentou para 43 vezes. Precisamos mudar o rumo da nossa história.
Acredito que estamos chegando lá. Recentemente, passamos talvez pelo momento mais crítico da nossa história econômica. O poder mudou de mãos. Um partido de esquerda governa hoje o Brasil. Mas não houve rompimento de contratos. O risco do país nunca mais será o mesmo. Nem os juros!
Revisão e edição: Renata Appel
Presidente do Sindicato das Financeiras dos estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, Vice-Presidente da Federação Nacional das Empresas de Crédito, Financiamento e Investimento (Fenacrefi) e Diretor da ASB Financeira
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