A expectativa da tragédia
Há um clima de desconfiança que ronda o mercado financeiro. A questão é se o Brasil irá ou não honrar os seus compromissos, no próximo ano, com a chegada de um novo governo. O pior é que a crise da dívida já se instalou no atual governo, tão acreditado pelo mercado. É a expectativa da tragédia, que causa a tragédia antecipadamente sem nem se saber se ela existiria propriamente no futuro.
O que se nota é um descolamento entre economia real, indicadores e fundamentos e o comportamento do mercado financeiro. Até que ponto um contamina o outro? Sempre contamina. Se a turbulência for curta, não afeta a retomada. Se for longa, certamente adia intenções de investimento das empresas e de compra dos consumidores. Até porque adia também a redução das taxas de juros.
Quem quer governar o Brasil precisa entender esse assunto e sua complexidade. Até porque, o candidato que não perceber isso pode até ganhar a eleição, mas não conseguirá governar o país.
Qualquer dívida vive da confiança que os credores depositam nela. E, ao contrário do que muitos pensam, a dívida não está com especuladores, credores externos, inimigos da pátria. Ela está com todos. Está com a classe média. Com as empresas.
Uma parte do crescimento da dívida é culpa do atual governo, de erros cometidos, dos juros, por vezes, desnecessariamente altos demais. Mas se não fossem as tão criticadas âncoras cambial e monetária, teríamos vencido a inflação e estabilizado a economia?
O governo errou várias vezes e, portanto, parte do custo deve ser debitado a ele. Mas é desonesto não reconhecer os esqueletos de outros governos e o custo da estabilização.
Há um ambiente pessimista no Brasil em função de alguns fatores específicos. A balança comercial está positiva, mas as exportações caíram. Os juros estão altos demais e a retomada do crescimento não está acontecendo. O desemprego cresceu e a renda caiu. A expectativa agora é saber se, apesar de todos esses dados ruins, a economia crescerá ou não no segundo semestre.
Infelizmente no Brasil a perspectiva de mudança política gera uma instabilidade profunda nos mercados. E leva ainda a uma crise que pode trazer de volta os fantasmas econômicos que nos assolaram no passado. Mas a verdade é que a situação é de fato preocupante. Temos uma demanda social crescente e inadiável e não existem soluções milagrosas, como parecem começar a perceber alguns candidatos, preocupados com a futura governabilidade.
O motivo da crise é basicamente interno, a partir de sucessivas avaliações negativas sobre a capacidade do governo em honrar sua dívida.
Além disso, com diversos escândalos financeiros envolvendo empresas norte-americanas e a desconfiança dos investidores até mesmo em relação aos Estados Unidos, nós, brasileiros, estamos em estado de alerta: o que poderá acontecer com a nossa ainda frágil economia? E não é para menos. O dólar subiu muito. Foram batidos recordes sucessivos de alta no Plano Real. E o Risco Brasil foi junto, na mesma maré.
O problema é que, ao mínimo sinal de desconfiança, os investidores começam a retirar o capital do país sem dó nem piedade e podem levar a economia para o buraco.
Portanto, o compromisso com a estabilidade deverá continuar, não importando o candidato que chegue ao Planalto.
Revisão e edição: Renata Appel
Presidente do Sindicato das Financeiras dos estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, Vice-Presidente da Federação Nacional das Empresas de Crédito, Financiamento e Investimento (Fenacrefi) e Diretor da ASB Financeira
e-mail do autor:
jala@asb.com.br
|