Um vice chamado José Alencar
Ele reclama, ele esperneia, ele até chateia. Lula deve pensar com os seus botões que feliz era Fernando Henrique: tinha em Marco Maciel o Vice dos sonhos. Mas, discordâncias à parte, é bem melhor para o Brasil ter um Vice-Presidente da República atuante. José Alencar representa o Brasil que produz. E, como representante do setor produtivo, ele precisa, sim, defender a queda dos juros.
No entanto, o próprio José Alencar deveria se preocupar um pouco mais com o teor de suas declarações. Parece-me que todos estão corretos: ele, Lula, o Ministro Palocci, o Presidente do Banco Central, Henrique Meirelles e todos aqueles que defendem a manutenção ou a queda dos juros.
Cada um trabalha com um objetivo. E defendem seus objetivos. No entanto, a economia começa a entrar nos eixos. E tudo tem seu tempo. É hora de darmos um voto de confiança para a equipe econômica.
E quem acha que Lula gosta dos juros altos, com certeza, está muito enganado. E quem acha que alguém no Brasil gosta de juros altos também está enganado. Pensaria o leitor que as instituições financeiras estão rindo de orelha a orelha com o patamar tão elevado de juros. Mas não estão não. Se o setor financeiro der mais crédito a um custo mais baixo, terá inadimplência muito menor. E, como conseqüência, lucrará mais. Com isso, produzirá ativos muito mais saudáveis para o sistema financeiro.
Mas voltando ao tema que quero pôr em discussão - a função de um Vice-Presidente da República - é importante enfatizar que ele precisa ser atuante, mas, em hipótese alguma, pode desestabilizar o Governo. Não acho que tenha chegado a esse ponto ainda, mas José Alencar precisa ser mais comedido. Pode e deve falar, mas na medida certa.
José Alencar entrou na chapa de Lula trazendo junto o aval do setor produtivo. Sua presença foi fundamental para melhorar a imagem do petista junto aos empresários. É até por isso que Alencar se sente responsável pelas reclamações do setor. Existe coerência em seu discurso.
O problema é que o Vice-Presidente deve ter noção da importância de seu cargo. Quando as divergências do governo tornam-se públicas, o mercado se atiça. O debate deve ser travado internamente.
Quando foi eleito, Lula talvez não imaginasse que a questão dos juros fosse tomar tanto o seu tempo. É certo que o petista já havia se comprometido em baixar os juros. Mas a repercussão que a manutenção das taxas vem tendo parece pegar o Presidente de surpresa.
Lula está sendo bombardeado por todos os lados, mais ainda por integrantes do seu próprio partido. Há meses que parlamentares como João Batista Babá e Heloísa Helena não dão trégua em suas críticas. Mas o que ninguém esperava é que viesse uma avalanche de críticas do próprio Vice-Presidente da República.
Não existe como saber cirurgicamente qual seria a melhor taxa de juros para o momento. No entanto, manter inalterada a Selic mostra toda a firmeza e coerência da equipe econômica. A defesa da moeda é o objetivo número um. É claro que o País não pode entrar em recessão, mas não há desenvolvimento sustentável com inflação fora do controle. A inflação é o imposto mais cruel para o povo.
Tudo indica que, já na próxima reunião do Copom, as condições estarão muito mais propícias para que seja dado o ponto de partida para a queda dos juros. Mas não creio que o BC será forçado a nada. Se tiver que manter novamente a taxa ou mesmo aumentá-la, tenho certeza que fará. A independência do banco está posta acima de tudo. E é por isso que a confiança no País foi definitivamente restabelecida.
Estou certo de que Lula e Alencar chegarão a um consenso para o bem do Brasil. Formam uma grande dupla. Representam extremos da sociedade. Mas, mesmo assim, convergem em quase todos os pontos. A única divergência é na questão dos juros. Os dois querem que caiam, mas Alencar tem muito mais pressa. Por incrível que possa parecer, Lula está sendo bem menos radical. É hora de Alencar virar também paz e amor!
Revisão e edição: Renata Appel
Presidente do Sindicato das Financeiras dos estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, Vice-Presidente da Federação Nacional das Empresas de Crédito, Financiamento e Investimento (Fenacrefi) e Diretor da ASB Financeira
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