Humanização dos espaços e o direito de todos
Comoveu-me o relato de uma colega. Para poder trabalhar, tinha que subir escadas, sofrendo dores com os deslocamentos. Bem perto de sua aposentadoria, pediu demissão. Contou-me depois que, muitas vezes, não consegue estacionar na cidade porque a vaga é ocupada por pessoas sem deficiência. A vez que reclamou, ao lhe ouvirem, debocharam dela e imitaram deficientes.
São muitos os que não respeitam as vagas de estacionamento em shoppings e em ruas. E a fiscalização? O direito das pessoas portadoras de deficiência física (PPDF) é facultado por lei. Desde 1994, existe a Norma Brasileira 9050 (ABNT), que define a acessibilidade para todos. Posteriormente, os municípios foram regulamentando e exigindo adaptações. Hoje, ela vem sendo atualizada. Mas de que adiantam leis se elas pouco são cumpridas? Sem nos colocarmos no lugar do outro, elas adiantam? E na hora que tais pessoas precisam, ninguém tem o poder de exigir, de multar? De quem é a competência?
Facilitar o acesso através de rampas, pisos adequados, rebaixos de meio-fio, elevadores, não serve apenas para pessoas deficientes. Existem as mulheres com carrinhos de compras, mães com seus bebês, obesos, gestantes, carregadores de produtos, idosos ou quem quer que seja que tenha sofrido algum traumatismo e não pode se deslocar facilmente. Portanto, os espaços projetados podem ser utilizados por qualquer um de nós. Ou não corremos riscos?
Quantos esforços resultam traumáticos quando há que vencer degraus? E quando carregamos peso? Todos seremos, em algum momento, deficientes. Conforme dados do CENSO 2000: 14,5 % possui deficiência. Aproximadamente 24,5 milhões de pessoas. E os idosos? O Brasil estará no 6º lugar no ranking mundial de população idosa em 2050. E ainda se questiona a acessibilidade para tais consumidores? Afinal, o ser humano é um ser racional, mas na realidade, sua razão não é bem assim. Existe uma visão arcaica. Para mudar, exigem compensação - só se puder descontar no I.R.. Esta ausência de empatia, reforçada pela falta de sensibilidade é preocupante. Olharmos as desgraças na mídia todo o dia reduz nossa sensibilidade? Acostumamo-nos com o sofrimento do outro? Será que precisamos passar pelas mesmas dificuldades para sermos humanos?
Muitas de nossas leis só são feitas e efetivamente cobradas quando alguém importante morre e aparece na mídia. Foi o que houve após a morte de um Ministro de Estado por causa da contaminação aérea. Até então, quem questionava a limpeza dos dutos do ar condicionado? Estamos esperando que algum deficiente importante morra para que, através da mídia, a população se sensibilize?
A vantagem que se pode ter por não sermos deficientes (sabemos até quando?) não deve nos impedir de melhorarmos os espaços e facilitar o uso dos ambientes com segurança. O portador de deficiência, seja visual, auditiva ou de locomoção, também é um consumidor. Também têm direitos. Quantas empresas já se deram conta disso? Marketing? Imaginem todos os que possuem deficiência entrando em uma loja!
Estamos no século XXI, mas o humanismo ainda está longe de acompanhar a tecnologia e vive-versa. Muitos tomariam menos antidepressivos se pudessem passear com segurança em nossas ruas. (Nossas calçadas nos levam a traumatologistas e farmácias...)
Aceitar limites é complicado. Dependência pode ser muito sofrimento. Mas também se pode crescer com isto, procurando novos rumos, novos caminhos. Recomeçar. A autonomia é o que nos faz mais inteiros (que falem as mulheres!). Na maioria das vezes, são coisas simples, mas que exigem enorme esforço das PPDF. Depender do olhar, da perna ou da mão do outro...
O seu direito depende muito mais da consciência dos cidadãos do que da implantação de leis. Mas se elas existem, devem ser cumpridas. Olhar para o lado e ver como podemos fazer alguma coisa pelo outro é simples. Respeitar o espaço do outro é muito mais simples. A cidade precisa abraçar a todos. Inclusive a nós, na nossa velhice.
Revisão e edição: Renata Appel
Escritora, Arteterapeuta, Mestre em Arquitetura, Consultora.
Site: www.sanaarquitetura.arq.br
e-mail do autor:
marilice.costi@sanaarquitetura.arq.br
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