Mudou o foco: de R$ 4 para R$ 3 ou menos...
Setembro de 2002: dólar chega a R$ 4. É o fim! O que fazer para segurar a cotação da moeda americana? O que fazer para a economia brasileira não afundar no atoleiro já vivido pela economia argentina?
Atualmente: dólar cai dos R$ 3. Pode ser o fim dos sucessivos recordes de superávit comercial. O que fazer para sustentar a cotação da moeda americana? Quem está certo: Mercadante, que defende uma pronta intervenção do Banco Central, ou Palocci, que não abre mão da livre flutuação cambial?
A questão, que comentei no início, sobre a possibilidade de afundarmos num atoleiro, já não se faz mais presente nos comentários diários de nossos economistas graças a Deus e ao governo Lula, que vem adotando um arrocho nas contas públicas jamais visto no Brasil. Os petistas do lado de lá, os chamados radicais, bem que devem estar com saudades de Fernando Henrique.
A segunda questão, no entanto, é realmente preocupante. Os números da nossa balança comercial estão magníficos e não seria bom deixarmos de lado o superávit comercial, responsável pelo início da recuperação econômica brasileira.
Mas estou convicto de que o Ministro Antônio Palocci e o Presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, estão atentos e não vão deixar de tomar as medidas necessárias no momento em que realmente for preciso. O câmbio é flutuante, como enfatizou o titular da Fazenda, e é desejável que continue assim. A moeda americana vai encontrar o seu equilíbrio: um ponto em que não prejudique as exportações nem realimente a inflação.
E é por isso que o câmbio é flutuante. Sendo flutuante, ele se ajusta às necessidades macroeconômicas. Quando são utilizados instrumentos heterodoxos para fixar um patamar de câmbio pré-determinado, como ocorreu no primeiro mandato de Fernando Henrique com o sistema de bandas e principalmente durante toda a última década na Argentina, quase se chegou ao caos, aqui e lá.
Nossos vizinhos argentinos, que amarraram a paridade do peso com o dólar via Constituição Federal até o fim de 2001, penam, até hoje, convivendo com uma economia altamente debilitada. Já o Brasil teve uma experiência dolorosa quando liberou a flutuação da moeda americana no início de 1999. Mas a crise aqui não se agravou tanto quanto na Argentina, porque a sobrevalorização do real não era tão significativa quanto a do peso.
Vamos pensar agora num ponto importantíssimo. Fiz duas perguntas no início. E agora eu lhe perguntaria qual o cenário preferível: o primeiro ou o segundo? Acredito que todos preferem viver o atual momento. Se antes não sabíamos o que fazer para segurar a alta do dólar, agora a conversa é bem mais tranqüila. As cotações caíram porque o cenário econômico mudou, e mudou para melhor.
Se os efeitos colaterais de uma alta vertiginosa da moeda americana seriam enormes e desastrosos, creio que há somente um efeito colateral nesse momento de queda da cotação: as exportações. Mas para quem soube como reverter aquela situação delicada, o problema atual parece bem mais ameno.
É muito bom que a conversa tenha mudado de foco. Não defendo que o dólar continue sua trajetória de queda livre e fique em patamares desfavoráveis aos exportadores - muito pelo contrário. Mas não tenho nenhum receio de que a economia volte a ficar debilitada. Estou muito otimista.
As reformas, dessa vez, parecem que vão sair realmente do papel e o risco Brasil, que já está abaixo de 900 pontos, deverá cair a níveis inéditos esse ano. Do jeito que a economia brasileira vem respondendo positivamente, a inflação vai ceder muito mais rapidamente do que se esperava e os juros poderão então cair. Resultado: crescimento econômico. E é isso que todos nós queremos!
Revisão e edição: Renata Appel
Presidente do Sindicato das Financeiras dos estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, Vice-Presidente da Federação Nacional das Empresas de Crédito, Financiamento e Investimento (Fenacrefi) e Diretor da ASB Financeira
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