O velho impasse do microcrédito
Vejo com bons olhos a iniciativa do Presidente Lula em alavancar o microcrédito no Brasil. Mas as medidas podem não sair do papel novamente. Muitos governos já tentaram e falharam. As financeiras deveriam ser chamadas para participar efetivamente do processo.
O microcrédito é uma modalidade muito específica de financiamento. Não basta conceder o empréstimo. É preciso acompanhar e orientar a aplicação dos recursos. Eles são destinados a um fim específico, geralmente para a abertura de um negócio.
O Governo Federal deveria incentivar as financeiras para que entrassem com força total no processo. Quando essas instituições notarem que se trata de um bom negócio, vão investir pesado e atenderão à demanda com eficiência.
Acredito que Lula esteja cheio de boa vontade. Mas isso só não basta. A concessão de microcrédito deve ser uma atividade com fins lucrativos. Somente assim terá o retorno desejado por toda a sociedade.
O governo está com a faca e o queijo na mão. As financeiras podem ajudar. Possuem a experiência necessária e estão em todos os cantos do País. É hora de juntar forças. Alavancando o microcrédito, alcançaremos o tão esperado crescimento econômico com distribuição de renda.
Já não é a primeira vez que procuro chamar a atenção do Planalto para este problema. Até recentemente, somente as Organizações Não-Governamentais (ONGs) faziam esse tipo de financiamento no Brasil. É preciso haver profissionalização.
O microcrédito ainda engatinha no Brasil. Em alguns vizinhos, na América Latina, ele já avança com ótimos resultados. Na Bolívia, o Banco Sol adotou o microcrédito há muitos anos e alcança rentabilidade média de 30% sobre o patrimônio, enquanto os outros bancos bolivianos, em média, alcançam apenas 10%. Isto se deve ao fato de a inadimplência tender a zero e o custo do dinheiro ser bem reduzido.
No Brasil, algo em torno de 25% da população tem relacionamento com bancos, isto quer dizer que o restante, cerca de 75%, fica totalmente à margem de crédito. Pois bem, são essas pessoas o público-alvo do microcrédito, que criará condições para que desenvolvam suas potencialidades.
Este é o momento certo para dar impulso a essa modalidade de financiamento. O combate à pobreza está na pauta central do governo Lula. Vários países apóiam o Fome Zero, mas cobram que o programa não seja apenas assistencialista, ou seja, que não dê só o peixe, mas também ensine a pescar. E é exatamente isso que o microcrédito faz. Não fornece somente os recursos. Acompanha a utilização do dinheiro e cobra o resultado final. Com isso, promove bem-estar social: o indivíduo trabalha e consegue seu próprio sustento.
O projeto para alavancar o microcrédito já conta com a Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil e o BNDES. Só faltam as financeiras, Presidente!
Revisão e edição: Renata Appel
Presidente do Sindicato das Financeiras dos estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, Vice-Presidente da Federação Nacional das Empresas de Crédito, Financiamento e Investimento (Fenacrefi) e Diretor da ASB Financeira
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