A democratização do microcrédito
Nós, brasileiros, somos empreendedores por natureza. Os negócios, de modo geral, são mal planejados ou mal administrados. Por isso, apesar de um número imenso de empresas serem abertas a cada dia, outro número não menos imenso fecha também todos os dias.
Para que esse quadro se reverta e o tão esperado desenvolvimento sustentável enfim ocorra, torna-se necessário não somente o fornecimento do crédito, mas um acompanhamento efetivo da atividade exercida pelos microempreendedores, responsáveis pela maioria dos postos de trabalho existentes no Brasil.
A solução para esse impasse é incrementar um tipo de financiamento ainda embrionário no país - o microcrédito - que já se constitui em realidade promissora em muitos países do mundo. O que faz essa modalidade de crédito diferenciar-se das demais é o acompanhamento passo-a-passo da empresa como também o treinamento disponibilizado.
Mas não basta financiar a máquina de costura, é preciso principalmente acompanhar a costureira desde o início, dando-lhe o suporte necessário e verificando se o dinheiro está sendo empregado realmente na atividade-fim proposta no contrato inicial. Seguindo essa logística, diminui sensivelmente a possibilidade de quebra do negócio.
No entanto, para financiar os microempreendedores, atualmente contamos apenas com Organizações Não-Governamentais e Sociedades de Crédito ao Microempreendedor, que movimentarão cerca de R$ 20 milhões em 2002, provenientes do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Esses recursos são ainda irrisórios se comparados, por exemplo, ao que é movimentado pelo Grameen Bank, de Bangladesh, que empresta cerca de US$ 1 bilhão por ano nessa modalidade.
A alavancagem do microcrédito somente ocorrerá no Brasil quando houver participação direta das financeiras. Para tanto, é preciso haver vontade política por parte do Governo e das instituições financeiras. Ocorrerá, a partir daí, uma democratização dessa modalidade de financiamento e o natural é que a movimentação de recursos seja infinitamente superior à atual.
Implantar programas de microcrédito como política pública é, sem dúvida, a melhor maneira de inserir os excluídos no mercado de trabalho, dando-lhes não somente apoio financeiro, mas também o suporte técnico necessário para o sucesso do empreendimento.
O microcrédito é bom para todos. Financia a geração de renda e de poupança. Mas para que efetivamente dê resultado e vire realidade, é preciso que as financeiras também sejam inseridas no programa do BNDES por contarem com estrutura e pessoal treinado exclusivamente para esse fim, além de estarem muito mais perto do povo do que qualquer outra instituição e atuarem em todo o território nacional.
Revisão e edição: Renata Appel
Presidente do Sindicato das Financeiras dos estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, Vice-Presidente da Federação Nacional das Empresas de Crédito, Financiamento e Investimento (Fenacrefi) e Diretor da ASB Financeira
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