Sacrifício que vale a pena
A ciência econômica não tem nada de exata. Muito pelo contrário. Por isso é tão instigante e gera tantas discussões. Ela produz modelos sensacionais, mas que, ao longo do tempo, podem se mostrar ineficazes, dependendo das circunstâncias ou, até mesmo, produzir cenários muito melhores do que os que haviam sido projetados anteriormente.
Dois mais dois são quatro e sempre vão ser quatro em qualquer país do mundo. No entanto, um modelo econômico utilizado em um país pode não surtir o mesmo efeito em um outro. Muito se discute, por exemplo, se métodos utilizados na Europa ou nos Estados Unidos seriam ou não eficazes no Brasil.
O sistema de metas de inflação, adotado no governo de Fernando Henrique e que continua sendo utilizado pela equipe econômica de Lula vem sendo muito discutido pela sociedade brasileira atualmente. Ele é utilizado por vários países europeus. Nesse sistema, todos os procedimentos macroeconômicos se baseiam na obtenção, a todo custo, de uma meta estipulada de inflação para determinado período.
E quando se diz a todo custo, é a todo custo mesmo. Antônio Palocci, Ministro da Fazenda, vem conduzindo com mão-de-ferro a economia brasileira desde o início de janeiro. Pedro Malan, o ex-ministro, do qual todos se queixavam ser frio e calculista, parece perder nesses quesitos para o atual ministro.
Chega a surpreender as medidas impopulares tomadas pela equipe de Lula. Os juros, que já eram altos, estão mais altos ainda nesse início de governo. Além disso, a restrição ao crédito tornou-se ainda maior com a elevação do depósito compulsório sobre os depósitos à vista dos bancos. Tudo para se chegar à meta de inflação estipulada. Mas, enfim, é um modelo que funciona ou não no Brasil?
Juros altos são amargos tanto quanto aquele remédio que você toma, mas que cura. É claro que em doses acessíveis. Não seria plausível, por exemplo, dar uma “pancada” grande na taxa, elevando-a dos atuais 26,5% para uns 50%. Até poderia ser um tiro certeiro para liquidar a inflação, mas colocaria o País numa recessão brutal e sem precedentes, além de elevar estratosfericamente a dívida pública, o que não seria bom para ninguém.
No entanto, a política de juros altos é a única estratégia da atual equipe econômica. Não haverá Plano B, como já ressaltou Antônio Palocci. Ao mesmo tempo que uma dose cavalar de juros mataria o paciente, um decréscimo de taxa, no atual momento, poderia gerar um crescimento grande, tipo como aconteceu no Milagre Brasileiro, mas que, acompanhado por taxas crescentes de inflação, praticamente não teriam valor algum.
O crescimento econômico em 2003 será menor que o esperado? Claro que sim. Mas é preciso debelar, de vez, o famigerado dragão da inflação. Os índices fechados de fevereiro já confirmam a tendência de queda. Só assim terminarão as especulações de que haverá mudança nas políticas monetária e fiscal, o que só prejudica os avanços conseguidos até então.
Um inesperado ataque veio da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que criticou a política monetária adotada pelo Banco Central. O Presidente da CNBB, Dom Jayme Chemelo, cobra que a política econômica esteja em sintonia com o lado social. Segundo ele, os juros altos trazem investimentos financeiros para o País, mas pouco a pouco tiram dinheiro da população e impedem o crescimento.
Mas nem todos pensam assim. Alguns especialistas vão na contramão. Tem gente que prevê um crescimento maior para o PIB esse ano. A explicação está na credibilidade do governo. A equipe econômica de Lula tomou decisões impopulares. Mas elas agradam os defensores da estabilidade. E isso pode ter efeitos positivos na economia. Apesar de antagônicas, as duas posições têm lá as suas justificativas.
O governo justifica que o aumento da taxa básica de juros e a elevação do compulsório foram respostas a um momento transitório. E não é mentira. Vale lembrar que vivemos sob a ameaça de uma guerra externa e sob uma pressão inflacionária.
Não há dúvidas de que Lula tem ciência de que a política de juros altos é incompatível com o crescimento econômico. Só que o Presidente encara o Banco Central como guardião da estabilidade. Sendo assim, a instituição tem que procurar manter a inflação sob controle.
O sacrifício recai sobre toda a sociedade, empresas e pessoas físicas. E o custo afeta a popularidade de um governo que foi eleito para dar mais empregos e promover o bem estar social. No entanto, até o momento, a popularidade de Lula parece intacta. E é bom que continue assim, porque é extremamente necessário que a política atual seja mantida. Senão, vejamos: todos os indicadores macroeconômicos vêm melhorando consideravelmente desde a posse de Lula. E só não estão melhores devido ao conflito no Oriente Médio.
O governo tem ainda um discurso na ponta da língua para acalmar os críticos. Uma vez estabilizados a inflação e o dólar, os investimentos voltarão e, com as reformas, será possível reduzir os juros.
Cabe enfatizar que as medidas tomadas pelo governo, até agora, no campo econômico foram as melhores possíveis nesse cenário de profunda incerteza. Lula e sua equipe estão comprometidos com a defesa da moeda. Reduzir os juros todo mundo quer. Mas não basta querer. A questão é técnica e não política. Precisamos suportar um sacrifício momentâneo para sermos presenteados com um futuro melhor.
Revisão e edição: Renata Appel
Presidente do Sindicato das Financeiras dos estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, Vice-Presidente da Federação Nacional das Empresas de Crédito, Financiamento e Investimento (Fenacrefi) e Diretor da ASB Financeira
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