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Comentarista: Cláudio Boriola
Classe média brasileira: mito ou realidade?

Muito se fala sobre uma tal de “crise da classe média brasileira”. Fala-se também em queda no poder de consumo, endividamento... ou seja, os apuros econômicos passados por tal parcela da população. Mas qual será a realidade, baseada em dados estatísticos, dessa classe? Qual é o tamanho real dessa parcela? Qual sua renda média mensal? Será que a classe média, além de perder dinheiro e diminuir, também perdeu sua importância no cenário nacional?

Esta última pergunta pode ser respondida pelo período em que estamos vivendo: o de eleições. Os dois candidatos que foram para o 2º turno, Lula e Geraldo Alckmin, disputam a classe média ponto a ponto. Um já tem a maioria nessa parcela da população. O outro corre atrás do prejuízo e tenta reconquistá-la. A classe média brasileira, por ser volumosa, interessa muito, não só aos dois candidatos, como a toda a classe política. Qualquer político que tenha o seu apoio maciço tem sérias chances de conquistar o cargo que quiser.

O Censo Demográfico de 2000 e a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) de 2003, ambos do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, se encarregam de nos dar os dados numéricos. Cerca de 15,4 milhões de famílias brasileiras são de classe média, o que representa 31,7% do total. Em valores atualizados no ano de 2005, o piso e o teto da renda mensal familiar são R$ 1.556 e R$ 17.351, respectivamente, com a renda mensal per capta variando de 1,7 a 9,4 salários mínimos. Ainda segundo a POF de 2006, a classe média é responsável por cerca de 50% de tudo o que é consumido no Brasil.

Historicamente, a classe média foi “inventada” na década de 30. Nessa época, deu-se início a política de industrialização e urbanização do país. O Estado necessitou da ampliação dos serviços nas grandes cidades. Isso durou até a década de 80, quando essa política foi abandonada. Daí por diante e, principalmente, na década de 90, o país passou a valorizar a elite e a crise econômica atingiu em cheio quem estava no meio do caminho, entre a população pobre e a de classe alta. A globalização e a nova divisão internacional do trabalho instauradas nessa época ditaram as mudanças, desvalorizando o investimento em novas indústrias e serviços. Particularmente aqui no Brasil, o confisco da poupança propiciada pelo então presidente e hoje senador eleito por Alagoas, Fernando Collor de Melo, ajudou a afundar ainda mais as famílias de classe média.

Nesse ponto entramos na questão do endividamento. Ele chega como conseqüência para as famílias de classe média que, mesmo numa crise financeira, querem manter um padrão de vida incompatível com a nova realidade. Quando se está numa boa situação financeira, muitas vezes se gasta com o desnecessário e com o supérfluo. Mas isso não é exatamente um defeito se existem condições financeiras para tal. Quando há uma queda nos ganhos, é necessária uma reestruturação no lar e uma reeducação na hora de comprar.

Há também o problema das pessoas que, mesmo com um menor poder aquisitivo, querem ter os mesmos bens que os vizinhos ou amigos que estão em uma situação um pouco melhor. É preciso se lembrar de que o aumento no consumo não garante a inserção na classe média. A ostentação pode ser bonita no visual, na aparência. Mas no bolso, causa estragos difíceis de serem consertados depois.

Hoje a nossa política econômica propicia poucas oportunidades de melhoria de vida. Só cresce quem planeja e quem sabe que dinheiro não brota ou cai do céu. Uma família de classe média deve se manter dentro do planejamento financeiro para manter o seu padrão de vida. Quem quer chegar lá também deve planejar. Mas deve ter em mente também que o jogo é difícil.

Revisão e edição: Renata Appel


Consultor Financeiro, Conferencista, Especialista em Economia Doméstica e Direitos do Consumidor. Autor do livro Paz, Saúde e Crédito – Editora Mundial e do Projeto para inclusão da disciplina "Educação Financeira nas Escolas".  
e-mail do autor: claudioboriola@boriola.com.br
 
 

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