Juros e spread em baixa, mas devagar
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Uma boa notícia que se verifica e repete ao longo do ano de 2006 é a queda consistente verificada nas taxas de juros médias nominais e no spread bancário. Isto significa que o custo do dinheiro está caindo e chega mais barato; logo, mais atraente, nas mãos do tomador, seja ele uma pessoa, seja ela uma empresa. Todavia, após longos anos de taxas elevadíssimas, é difícil sentir de um momento para outro o conforto gerado pela diminuição nas taxas de juros. Em agosto de 2005, a taxa Selic, efetiva referência do custo do capital no Brasil, alcançou os 19,75%. Desde essa data, iniciou uma longa, coerente e marcante trajetória de baixa, atingindo 14,75 % em julho de 2006. Ou seja, em menos de um ano, a involução da taxa correspondeu a 25,32% de sua base referencial máxima, tornando-se mais atraente para o tomador de créditos. Isto equivale a afirmar que a taxa em julho de 2006 era 74,68% da taxa verificada em agosto de 2005.
Fruto do sucesso ao combate inflacionário e da queda na demanda agregada, esta queda na taxa revela que o custo do capital financeiro de fato dirige-se na direção certa. Na média, reduziu-se a taxa de juros em 0,5% ao mês, persistentemente. Isto é marcante. Significa que tomar dinheiro é cada vez menos dispendioso. Mas por que não é bem assimilada a queda total percentual na ponta do tomador? Entre as razões da morosidade da taxa chegar menor ao consumidor, citam-se: a existência de um depósito compulsório elevado sobre depósitos à vista e a prazo captados pela rede bancária, o que gera um pequeno volume de crédito livre, que por ser raro, fica caro; o carreamento das poupanças compulsoriamente para o financiamento e o giro da dívida pública; a entrada limitada de recursos externos na forma de novos investimentos e financiamentos de longo prazo; a alta carga fiscal sobre operações financeiras; e o ainda alto grau de endividamento e de inadimplência dos consumidores.
Efetivamente, estes elementos podem explicar em boa parte porque os spreads bancários – um diferencial entre as taxas de captação e de aplicação – diminuíram bem menos que a taxa Selic. É dentro do spread que se incluem as taxas que cobrem as operações produtivas, funcionais e transacionais dos bancos, assim como se faz a cobertura por perdas originadas por inadimplências e cargas fiscais crescentes.
Em setembro de 2005, os spreads médios anuais no crédito a pessoas físicas alcançavam os 44,1%, conforme levantamentos do Banco Central do Brasil, e caíram para 40,6 % em junho de 2006. O spread caiu, portanto, 7,94%, um valor edificante e alvissareiro, embora tímido para cativar levas crescentes de tomadores de recursos. Este valor descendente mostra a existência de uma certa rigidez para baixo no spread; portanto, uma dificuldade estrutural em serem concedidas taxas atraentes na ponta final, do tomador de empréstimos. Isto apenas encontrará soluções ao serem redefinidos os valores, sistemas de produção e gerenciamento geral de macroestruturas de Estado.
Ao analisar os spreads médios anuais no crédito a pessoas jurídicas, que timidamente caíram de 14,1% em setembro de 2005 para 13,6 % em junho de 2006, o que corresponde a 0,5% em dez meses, registra-se uma involução de 3,55%. Esta diminuição salutar não é maior, porque a economia arrefeceu-se do 2º trimestre deste ano para o 3º. No caso das empresas, seu risco elevou-se com a sobrevalorização cambial, pois sua competitividade de exportação foi diminuindo e, com isso, as vendas ao Exterior tenderam a gorar em numerosos casos.
Merece atenção o fato de que 1.153 empresas não prosseguiram em suas exportações no 1º semestre, passando de 14.942 para 13.786 firmas. Isto significa provavelmente que a cotação do câmbio reduziu suas margens e gerou um efeito-preço pouco atraente para gerar vendas no Exterior. As taxas de juros também podem manter-se altas porque o sistema bancário e financeiro resguarda-se, o que é de bom senso e de seu direito. Cabe a ele preservar o patrimônio dos acionistas, dos clientes e fornecedores, na roda-viva da geração e intermediação de negócios do capital. Mediante taxas de juros mais altas, que embutem o risco embutido num negócio, o credor emblematicamente manifesta que não pode liberar créditos ilimitadamente, e que a partir de certo valor liberado as taxas devem subir porque o risco de não-devolução vai aumentando.
Revisão e edição: Renata Appel
Presidente da Institutional Business, Economista e Conselheiro Econômico de diversas entidades, dentre Secif-RJ, ACREFI, Instituto Danneman e FEBRAFARMA.
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