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Comentarista: Juliana Girardelli Vilela
A consolidação do combustível limpo

O etanol de cana-de-açúcar é o indutor de profundas mudanças na agricultura, na indústria e na matriz energética do Brasil. Esse combustível limpo já é a 2ª fonte de energia no país, respondendo por 16% de todo o consumo, decorrente dos ganhos de produtividade nas lavouras e usinas, que derrubaram os custos do barril de etanol de US$ 90, na década de 80, para US$ 30, em 2008, enquanto as cotações do barril do petróleo saltaram de US$ 12 para mais de US$ 130, no mesmo período.

O Brasil consolidou uma importante posição no que se refere ao etanol: é o 2º maior produtor, atrás apenas dos EUA, e o maior exportador mundial. Na safra de 2006/07, o país produziu 17,9 bilhões de litros de álcool e deve atingir 27 bilhões na safra 2008/09. No entanto, a despeito desse cenário, inúmeras críticas têm sido feitas sobre a produção de álcool, responsabilizando o setor, no Brasil e no mundo, pela disparada dos custos dos alimentos. Porém, uma análise mais técnica do assunto demonstra a fragilidade dessas opiniões. De um modo geral, porque, no mundo, a área dedicada à produção de biocombustíveis é de 10 milhões de hectares, e a área para agricultura, de 1,2 bilhão, não há sequer senso de proporção na defesa dessas idéias.

No Brasil, essas críticas são ainda mais insustentáveis. O que comprova isso é que o país vai produzir a maior safra de grãos de sua história, colhendo 142,1 milhões de toneladas de milho, soja, arroz, feijão, algodão, trigo, sorgo, amendoim, mamona, girassol, entre outros. Ao mesmo tempo, obterá a maior produção de cana de todos os tempos, em um total estimado em 568,9 milhões de toneladas, com extração de 26,9 bilhões de litros de etanol, de acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento.

Portanto, se a produção de cana-de-açúcar cresceu 8,3%, a safra de grãos 2007/08 revela crescimento de 7,1%, com 5,5% de incremento na produtividade em detrimento de apenas 1,6% de aumento de área plantada. É importante ressaltar que essa produção de grãos é tão exorbitante que será suficiente para assegurar o abastecimento doméstico, sustentar os rebanhos de bovinos, aves e suínos e dar suporte ao ritmo crescente das exportações do agronegócio. O fato é que os verdadeiros responsáveis pelo aumento nos preços dos alimentos, na avaliação de especialistas, são: a alta do petróleo, a redução dos estoques mundiais de grãos, a forte demanda por alimentos de China e Índia e a especulação financeira.

Porém, as recentes críticas ao etanol não arrefeceram o ânimo dos investidores. O número de usinas de açúcar e álcool com ações negociadas na Bovespa – Bolsa de Valores de São Paulo – deve dobrar nos próximos 18 meses, conforme consultorias especializadas no setor. Para os próximos 6 anos, o valor estimado é de US$ 17 bilhões. Ocorre que o movimento de consolidação de empresas atinge de forma geral o setor de geração de energia renovável em todo o mundo. Um levantamento global da consultoria KPMG revela que o valor total das fusões e aquisições realizadas em 2007 foi 47% superior ao verificado em 2006. No Brasil, não tem sido diferente. O número de transações envolvendo usinas saltou de 9, em 2006, para 25, em 2007, com grande parte dos investimentos advindos dos fundos de private equity.

A verdade é que o Brasil criou uma eficiente agricultura tropical, reconhecida em todo o mundo, que afasta o estigma da economia clássica de que a população cresce em progressão geométrica, enquanto a de alimentos cresce em progressão aritmética. Afinal, produzimos mais com menos terra. No dilema de Malthus, como sabemos, a tecnologia não foi contabilizada.

Revisão e edição: Renata Appel


Formada em Direito e Economia pela PUC-SP, com especialização em Relações Internacionais pela USP. Professora Assistente de Direito Civil da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Membro: Ordem dos Advogados do Brasil – OAB, desde 2007; Centro de Estudos das Sociedades de Advogados – CESA, Câmara de Comércio França – Brasil; Instituto para Formação no Direito Internacional Comparado Brasil-Portugal e Grupo de Estudo de Direito Econômico da FIESP.  
e-mail do autor: jgv@peixotoecury.com.br
 
 

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