Desabafo
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Nunca antes na história deste País se viu tantos “desvios éticos e de conduta profissional", para usar expressões sutis e menos agressivas para quem lê. Desde os tempos em que bancos públicos passaram a financiar o “valerioduto”, pessoas e empresas perderam definitivamente o prumo da ética. A Febraban oferece congressos a desembargadores e juízes em pleno calor nordestino, com direito a estadia em hotéis 5 estrelas, tudo integralmente “free” e em nome de um suposto congraçamento profissional e da “troca de idéias”. A Telefônica de São Paulo faz festa de fim de ano para os Procons regionais e brinda os convidados, servidores públicos que recebem reclamações desta mesma empresa “top no ranking das reclamadas”, com presentes que vão desde aparelhos de DVDs e celulares até viagens. Temos deputados na Palestina e em Nova York, vereadores que vão à Argentina com suas despesas pagas pelo erário público, sob a fantasiosa alegação de participar de congresso que, já se sabe, nunca ocorreu. Emendas são apresentadas ao legislativo federal para destinação de recursos a entidades assistenciais que nunca viram a cor deste dinheiro. Tem Ministro usando o cartão corporativo para comprar desde perfumes importados até o pãozinho na padaria da esquina, sem qualquer prejuízo ao seu salário. O fardamento da polícia civil (que agora é terno e gravata) tem seu preço inflacionado de R$ 143 para R$ 300 com a justificativa (e assinatura do Diretor do Departamento de Identificação, Pedro Herbella) de se tratarem de “despesas com operações sigilosas”. Pior do que tudo, tem até “Manual para Ladrões” publicado e circulando na praça como mostrou a revista Veja na edição da semana passada...
Enfim, se fosse necessário citar todas e quaisquer irregularidades que “nunca antes na história deste País” foram vistas, pelo menos de forma tão escancarada e impune, seriam necessários vários exemplares de jornal, inúmeras edições de revistas e incontáveis páginas da web. Só que, lamentavelmente, citar tão somente um caso já se tem como ilustrada toda a situação, na medida que a burla, a má-fé, o locupletamento ilícito se tornaram “café pequeno”, coisa comum, fato cotidiano que nem exige mais tempo de leitura do cidadão. Ler uma ou todas as matérias é rigorosamente a mesma coisa: o texto, a conclusão e a sensação de impotência e impunidade são exatamente iguais.
Revisão e edição: Renata Appel
Advogada especialista em direitos do consumidor.
e-mail do autor:
eunicecasagrande@terra.com.br
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