O Brasil de vento em popa
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Dois mil e sete se encerra com bons fluidos para o Brasil. Em que pesem os escândalos políticos, os apagões aéreos e do gás, a violência urbana, a burocracia opressora e a incapacidade crescente em atender com infra-estrutura decente as demandas por numerosos bens e serviços públicos, o quadro macroeconômico de curto prazo melhorou. A inflação permaneceu baixa, como fruto de uma ortodoxa e severa política de contenção monetária. Isto permitiu que prosseguisse a rota descendente da taxa Selic, referencial do país e eixo de renegociações da dívida pública mobiliária interna. Situando-se entre 3,8% e 6,3%, segundo o indicador escolhido, a inflação foi domada e o instrumento das metas inflacionárias consagrou-se definitivamente como bom premonitor de evoluções de preços e de variações da política monetária.
O crescimento econômico mostrou uma rota ascendente para a formação da renda dos trabalhadores, que recuperou ganhos em 4,8% no prazo de 12 meses, entre novembro de 2006 e outubro de 2007. Sem maior pressão inflacionária, é possível dar alento ao produto. Desta forma, apostar numa perspectiva de alta adicional modesta, marginal e positiva, parece ser assunto de bom senso. O crescimento do PIB indica uma taxa de variação de 5% a 5,5% em 2008.
Relevante neste âmbito é perceber que a taxa é claramente auto-sustentável. Isto porque prosseguiu com grande acerto e intensidade a formação de elevadas reservas internacionais. O Brasil acrescentou mais de US$ 32 bilhões às suas reservas líquidas, muito embora a tendência de formação de reservas na margem seja de queda. Um empecilho para a formação de mais reservas é a desvalorização do dólar, sobre a qual se referencia boa parte da ação comercial internacional brasileira. Com a crise gerada pelo marcado “subprime” ou de segunda chance, onde quem não tem bom currículo na praça americana ainda assim recebe créditos, somada ao déficit público montado pelo governo Bush, os americanos abandonaram a equação do equilíbrio orçamentário público.
É sabido que “receitas devem igualar-se a despesas públicas”. Como isto está longe de acontecer, e a administração Bush criou uma dívida pública de US$ 200 bilhões, tendo herdado um superávit fiscal de US$ 514 bilhões do governo Clinton, o ano de 2008 promete ser de ajuste duro e complicado nos EUA. Nesta perspectiva, será inteligente considerar a sério o “fator Gisele Bundchen”. A linda e cosmopolita modelo brasileira declarou que seus contratos preferencialmente devem ser em euros e não em dólares, pois estes desvalorizam. Faz sentido, portanto, formar reservas internacionais brasileiras pautadas em euros, posto que o dólar poderá desvalorizar por dois a três anos, pelo menos.
Com um real forte, as perspectivas de importação são excelentes. No varejo, continuará a introdução de mais artigos importados, especialmente oriundos dos EUA, da Europa, do Japão e da China. Por outro lado, as exportações tendem a evoluir num ritmo menor, embora elas continuem formando excelentes reservas. Por conta da Petrobrás, que descobriu em 2007 mais um gigantesco campo petrolífero, o de Tupi, as fortes oscilações dos preços do precioso líquido tendem a afetar cada vez menos o Brasil, e quando afetam o fazem na direção que nos beneficia.
Para o Brasil, isto significará maior alento nas exportações dos produtos da matriz energética e grande capacidade de fazer divisas com o álcool etanol. Enfim, desafios moverão o país. Entre eles, a batalha pela desoneração fiscal. Caberá ao Legislativo e ao empresariado continuar na luta pela reforma tributária para viabilizar mais empregos, negócios e renda, a favor do Brasil. As perspectivas são boas, mas existem grandes desafios a sobrepujar.
Revisão e edição: Renata Appel
Presidente da Institutional Business, Economista e Conselheiro Econômico de diversas entidades, dentre Secif-RJ, ACREFI, Instituto Danneman e FEBRAFARMA.
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