Querido Papai Noel!
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Ao escolher cartas com pedidos de Natal nos Correios, decidi enviar a minha. O meu pedido não parece difícil, se bem que comprar coisas é mais fácil do que mudar o coração das pessoas. Mas não custa tentar, não é?
Na visão do Mário Quintana, as pessoas que não andam na direção dos que precisam de ajuda são paralíticas e as que não deixam o amor crescer são anões. Neste ano que finda, a paralisia e a falta de amor fizeram muitas pessoas sofrerem.
Um exemplo para que possas entender: pessoas especiais que possuem “passe livre” tiveram suas carteiras retidas por cobradores de ônibus, apenas porque elas estavam gastas, usadas, mal cuidadas. As carteiras novas ainda não haviam chegado e a ordem era reter os documentos. Ora, Papai Noel, isto não é paralisia? Como fazer uma direção de empresa e seus funcionários entenderem o que significa isto para uma pessoa especial? Conto com tua ajuda, viu? Porque tirar o direito delas de circular é muito dolorido, até porque sua circulação é fundamental: visitar suas famílias e fazer seus tratamentos. Isto não pode, Papai Noel!
Fiz a minha parte: o maior auê. A Prefeitura, pelo 156, nem deu resposta. A imprensa não deu retorno. Mandei para a Câmara Municipal, para vários jornalistas de renome... Ninguém deu a mínima, porque isso pouco interessa à mídia e aos que precisam de voto. Pensei em registrar queixa na Delegacia, pois ameaçar uma pessoa especial não pode ficar assim. Quem tem seus direitos lesados e é ameaçada não merece ouvidos? Comentaram que tinha que ter QI. O que é isto? Ele mesmo, meu filho, tentou ir dar queixa, mas como é especial, não lhe dão crédito, disseram-lhe que só indo a mãe junto.
A empresa responsável, dias depois, mandou pedido de desculpas em letras caixa alta (me disseram depois que isto siginifica gritos – deve ser porque meu filho tem surdez e precisam gritar até pela internet, ou também porque estão tão distantes da comunidade que só ouviremos dessa forma). No e-mail tinha um número de telefone. Liguei. Quem atendeu foi a estagiária. Que foi também quem assinou o e-mail. Nada contra as pessoas que são mandadas e estão ali para aprender, mas não estão ensinando errado?
Dias depois, uma mulher que não quis se identificar, apenas quis saber se falava comigo, informou-me, por telefone que a carteira dele de “passe livre” estava na seção de achados e perdidos da EPTC. É só passar na Rua Uruguai, que está lá, foi categórica. Temo pelo descomprometimento ético das empresas: a de ônibus e a EPTC. Uma empresa tem que levar essas coisas com mais seriedade. Qualquer pessoa é importante. Nos tempos da SMT, a ética e o respeito às pessoas eram muito claros... Trabalhei lá e assisti cenas educativas, muitas. Cobrador e empresário tinham que comparecer para saber do fato, explicar e aprender com o que ocorreu. O fiscal da SMT atuava. Por que as coisas ficaram desse jeito? Um pedido de desculpas impessoal e a carteira nos achados e perdidos? Veja só, Papai Noel, ainda querem rotular meu filho de relapso e descuidado com seus documentos. A carteira não foi perdida, ela foi retida – roubada ao vivo e a cores – e ele ainda sofreu ameaça de chamar o fiscal e ir na polícia, caso não a deixasse com o cobrador.
Então, Papai Noel, peço que ilumines o coração e a mente de nossos políticos, que não dão importância às pessoas simples – elas não votam, mas suas famílias votam! Dê-lhes boa memória (e a todos nós também) e mais inteligência e sensibilidade para as pessoas que tratam com público. A acessibilidade das pessoas, seja dentro de um ônibus, seja ao circular pela cidade, é um direito. E ninguém pode retirar o documento de ninguém! Isto é lei!
Ah, e também peço que as lembre das áreas urbanas, para que o direito de circular seja seguro. Nossas calçadas estão horríveis.
Só isto, e o meu Natal já será muito bom!
Aguardo teu retorno. Boas festas!
P. S.: Se puderes me informar o que é este tal de QI, porque me disseram que sem isto ninguém ajuda ninguém. Preciso achar um QI.
Revisão e edição: Renata Appel
Escritora, Arteterapeuta, Mestre em Arquitetura, Consultora.
Site: www.sanaarquitetura.arq.br
e-mail do autor:
marilice.costi@sanaarquitetura.arq.br
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