A arte, que estimula a percepção e o pensamento crítico com uma boa pincelada lúdica, é o que se pode encontrar na Bienal B. Contextualizada e universal, ela reflete um movimento importante, agregador de muitos grupos de artistas gaúchos. O espaço industrial propiciou uma ambiência elaborada com sucatas que estavam ali jogadas. Dezenas de artistas meteram a mão na massa e limparam a área dando nova vida aos materiais ali jogados: luminárias de garrafas pet, banquetas com almofadas de banners velhos, talheres decorando paredes, mesas forradas de embalagens de café em pó e latas de tinta que se transformam em bancos. Passaram a ser úteis e estimulantes do nosso fazer com tanto lixo produzido.
Essa Poa É Boa posiciona-se com poder de fogo e proporciona um passeio prazeroso. Peças em várias técnicas e materiais formam conjuntos harmoniosos. Fotos, imagens digitais, peças delicadas de cerâmica que irrompem de pilaretes de tijolos maciços, um barco poético do Dilúvio em papel jornal com trapiche e acesso ao seu interior (uma analogia aos barquinhos de papel de nossa infância, ao Dilúvio que nos assola, com chuva, esgoto e lixo? As palavras dos poetas são a nossa salvação? Ou qualquer palavra impressa pode virar barco?). Área dedicada aos skatistas (dá vontade de ser um!), uma casa que parece ser de favela, mas no seu interior... os elementos não serão de outra classe social? Uma gaiola, cujo pássaro rompeu as grades... É preciso tal esforço para ser livre! Aves que nos espiam da estrutura do telhado. A poética dos trançados. A cobra em tecido mil vezes “carimbado” reflete um movimento orgânico, sutil, de cascavel? A premonição do que estamos fazendo com o planeta na voz de Nara Leão.
Outras peças caracterizam o bairro que acolhe a amostra. Navegantes, nave como antes, zona norte, viva e morta, de papeleiros e industriais, um questionamento a mais? Tudo para atiçar os sentidos e estimular o imaginário. Mitos, ritos, conflitos. A mostra agrada e, mais que isto, dá recados, diverte, ensina: em vez de lamentar, mostrar serviço, dizer para que veio, mostrar a garra do sul do Brasil. Um exemplo admirável. A Bienal B tem nota A e, agora, é parte de nós, representados no inconsciente coletivo produzido, na inclusão dos excluídos, onde somos parte de todos os “nós”.
Essa Poa é mesmo muito boa!
Confira até 02/11 no Bairro Navegantes e no portal
www.essapoaeboa.com.br.
Revisão e edição: Renata Appel