Todos precisamos de tapetes voa-dores
Uma idéia, um bordado, um movimento, o vôo, um desejo: levar a dor embora. A arte feita pelos que vivem na insanidade é embalada pelo vento e pode ser vista na Exposição Tapete Voa-dor. Os bordados em pequenas toalhas penduradas em varais foram criados sob estímulo da exposição Quatro por Quatro, realizada por ocasião do aniversário de 10 anos da Oficina de Criatividade, na Pinacoteca Barão de Santo Ângelo do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e no Hospital Psiquiátrico São Pedro. O evento ocorre em uma das salas da Oficina de Criatividade do HPSP em Porto Alegre, que já abrigou cerca de 5 mil moradores na década de 70 e que mudou devido à revolução dos psicofármacos. Muitos pacientes voltaram para suas famílias, e os que possuíam autonomia foram transferidos para serviços residenciais terapêuticos, restando, hoje, cerca de 400.
Todos que trabalham com arte e com a doença mental precisam cuidar de si e resgatar seu processo criativo. O assunto veio sendo amplamente discutido no grupo que ali atua. “Daí a idéia de construção de um trabalho em conjunto com os internos-freqüentadores da Oficina”, conforme afirma Bárbara Neubarth, coordenadora do projeto e da oficina, fundada em agosto de 1990. Esta parte do Núcleo de Atividades Expressivas, que leva o nome de Nise da Silveira, atende crianças, adolescentes e adultos, e possui em seu acervo cerca de cem mil trabalhos.
A criação dos tapetes foi feita com os pacientes juntamente com alguns artistas plásticos, professores da UFRGS, moradores e alguns pacientes encaminhados de serviços de saúde. Afirma Bárbara Neubarth, que o “Núcleo faz parte da rede de atenção em saúde mental como um dispositivo de criação e de vida, servindo como um espaço de troca, convivência e de resgate da dimensão subjetiva. As oficinas podem ser tomadas como uma atividade coletiva, remetendo seus participantes, através do ato criativo, à convivência com o social”.
Demonstrando a potência da arte na saúde, o trabalho feito em muitas quintas-feiras vai voar para outros lugares, num “continuum” de inserção social que teve início no dia 31/08, encerrando em 28/09, e pode ser visitado entre 9h e 12h na Avenida Bento Gonçalves, 2460. Seu vôo não termina ali, entre 4 imensas paredes degradadas e nem confinadas num edifício por si só amedrontador e mal cuidado, mas um local que contém um lampejo de luz, esperança e afeto.
Somos ali, pacientes, artistas, espectadores de um movimento do ar, de um varal cheio de cores e emoções, onde somos a boca fechada, a pandorga que perdeu o fio, os pés para fora dos limites, caminhos que se interpõem. Muitas leituras a fazer nas dezenas de tapetes que levam a dor em novos vôos.
Onde está a artista e onde o paciente? Apenas dois nomes bordados distinguem autores. O conjunto demarca a força da criação e a qualidade estética independentemente de quem tem mais ou menos condições emocionais. Nada disto importa quando o coletivo e o singular conjugam no fazer catártico de uma só humanidade.
Revisão e edição: Renata Appel
Escritora, Arteterapeuta, Mestre em Arquitetura, Consultora.
Site: www.sanaarquitetura.arq.br
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marilice.costi@sanaarquitetura.arq.br
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