Brasil segue imune, mas é bom não descuidar
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Em grande medida, a crise imobiliária americana vinha sendo antecipada, avisada e prenunciada pelo mercado financeiro. Na medida em que se aceitava absorver consumidores de baixa renda e sem maior histórico relevante no mercado de crédito imobiliário, ocorria de modo crescente a probabilidade de suceder-se o inadimplemento e a incapacidade de pagamento dos devedores da casa própria. Bancos lastreados no recebimento de juros em papéis sub-prime fizeram uma aposta perigosa, arriscada, e sabiam das perdas potenciais que poderiam ter. Por estas razões, não é de surpreender que diversos bancos especializados em créditos de longo prazo tenham ficado ilíquidos, e a ajuda dos bancos centrais no mundo, injetando US$ 348 bilhões em 21 dias, tenha sido uma das medidas para evitarem-se pânicos, quebras sistêmicas e efeitos dominó.
Resta saber, e aí remanesce uma dúvida, se efetivamente o problema mundial e dos EUA resume-se apenas no mercado de sub-prime. O que assegura isso? Poderia ainda haver algo mais escondido, por debaixo do tapete, que não chegue aos ouvidos do comum dos mortais? É hora de ficar bem informado, agir com cautela e precaução. Nos bancos e financeiras, a seleção das carteiras de devedores, a correta filtragem dos bons pagadores daqueles que são problemáticos ou reincidentes e o acompanhamento e a orientação parceira, que seja responsável, dos clientes, para que eles sintam maior segurança e melhor resultado em suas ações, hão de merecer atenção das lideranças setoriais e financeiras.
Neste sentido, internamente, o Brasil parece estar bem guarnecido. Entre 2003 e 2007, o dever de casa da busca do reequilíbrio das contas do Tesouro, da Balança de Transações correntes e da luta antiinflacionária foi bem elaborado e feito. Em julho de 2007, o Brasil fechou suas contas com um déficit do Tesouro que é de 2,8% do PIB; dispõe de US$ 162 bilhões em reservas internacionais e se dirige ao grupo dos jovens credores mundiais; e a inflação flutua perto dos 3,4%.
Daí, decorre que a bolsa brasileira pode sentir os efeitos dos medos internacionais, aos quais nos atrelamos num mundo globalizado e de transnacionais. Contudo, como os bancos brasileiros não possuem sub-primes em suas carteiras, nem as multinacionais brasileiras que dispõem de tesourarias no Exterior, o risco de contaminação é realmente baixo. O ponto que há de remanescer em nossas mentes, como lição do que ocorre nos EUA, é que o mercado de crédito imobiliário é complexo. Em 18 meses, esse mercado cresceu de forma excelente no Brasil, a uma taxa de 46% nominais, trazendo maior bem-estar a aproximadamente 1,3 milhões de brasileiros e suas famílias. Contudo, ao lidar-se com a camada da população que aufere renda baixa num quadro de desemprego elevado, próximo a 9% da População Economicamente Ativa (PEA), o limite de oferta de crédito se antecipa e limita.
A seleção dos tomadores há de ser mais cuidadosa, para evitar-se o perigo da incapacidade de pagamento e de penosas renegociações. Criar mercado e aumentar o seu tamanho é necessário. Contudo não se há de queimar etapas nem colocar em risco a saúde financeira dos intermediários financeiros e das famílias. Não é hora interna para ufanismos e declarações grandiosas, que afirmem que estamos incólumes e ao largo da crise mundial. Temos muitas lembranças de momentos do passado que expuseram nossas fragilidades e mostraram o quão delicado é um equilíbrio macroeconômico. Já sofremos bastante nos idos dos anos 1973/1974 e 1978/1979, quando as autoridades afirmavam que o Brasil era "uma ilha de prosperidade". Não era. E vimos repetir-se o problema com outra faceta, no setembro negro de 1982, quando o Brasil quebrou inapelavelmente. Daquela data em diante, o Brasil cresceu pouco e não faltaram e nem faltam numerosos apagões, dos mais diversos teores.
É hora de perseverar na busca de fundamentos macroeconômicos de fato saudáveis. É hora de fazer as reformas de Estado que permitam elevar o grau de produtividade tanto do setor público, quanto do setor privado. E é hora de agir com discrição, solidez e solidariedade. Desta forma, a rota da evolução perdurará e a satisfação com o sistema aumentará.
Revisão e edição: Renata Appel
Presidente da Institutional Business, Economista e Conselheiro Econômico de diversas entidades, dentre Secif-RJ, ACREFI, Instituto Danneman e FEBRAFARMA.
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