Insegurança – tapando o sol com peneira
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Acontece uma tragédia e lá vem mais uma comoção social. Setores da mídia aproveitam para aparecer; políticos, para faturar votos; alguns, para "salvar a pátria", outros, para dar golpes. E lá se vai a cidadania, a democracia, a sensatez, tudo vai pelo ralo. Nos momentos de tragédias, não é sensato repetir Édipo e arrancar os olhos da cara e ficar cego. Passionalismos, oportunismos, açodamentos só atrapalham: cegam as pessoas e perdemos o rumo do barco, levando a naufrágios e mortes.
Não bastasse nosso Secretário de Segurança só falar em Lei Seca, enquanto aumentaram os assassinatos em 25%; agora, vem um vereador propondo "salvar vidas", proibindo carros fortes de apanhar valores durante o dia ou entrar apenas em local confinado, mas na verdade vai aumentar a insegurança. Nem uma, nem outra coisa são possíveis. Pois as coisas na cidade não se organizam de forma simplista. É tapar o sol com a peneira. Valores circulantes (dinheiro em papel ou em moeda, vales transportes, vales refeição) são questões de segurança privada, regidos por legislação própria, e é o que vem acontecendo. O que não está acontecendo é a segurança pública, cujos organismos públicos não têm os meios, pessoal, capacitação para fazer segurança preventiva, serviço de inteligência para acabar com as grandes quadrilhas e o crime organizado... daí seus gestores ficam "fazendo cortina de fumaça" para se esconder, mas isto só agrava a situação de insegurança.
O transporte de valores é regido pela Lei Federal 7.102, fiscalizado pela Polícia Federal. O transporte de valores é considerado serviço essencial pelo Contran, com autorização para estacionar em fila dupla, próximo aos locais de embarque e desembarque de numerário. Foi regulamentado pela autarquia federal Instituto de Resseguro do Brasil – IRB: este terá cobertura securitária somente no período entre 8h e 20h. Os funcionários de transporte de valores não podem ser jogados para horários nos quais serão vítimas de assassinos, pois os bandidos saberão os horários certos, o altíssimo montante transportado, logo vão abrir a fuzilaria de madrugada e matar.
Se esta Lei fosse aprovada, haveria desabastecimento dos locais de auto atendimento bancário (caixas eletrônicos), que necessitam reposições durante o dia. Alguns (nem todos) grandes estabelecimentos, como hipermercados, possuem estrutura física para recepção de carro-forte individualizada, mas como ficarão os pequenos empresários que possuem pequenas lojas, porém de grande movimentação de valores, como farmácias, lotéricas, mercados de bairro, postos de gasolina? Todos invariavelmente ficarão à mercê da bandidagem, com aumento da criminalidade, pois todos saberão que o carro-forte não fará o recolhimento de dia.
Defendemos nesta cidade a vida, como poucos, com o nosso cotidiano combate à criminalidade, ao roubo e furto de carros. Por isso, queremos saber: como ficará a segurança dos funcionários destes estabelecimentos, proprietários e clientes?
Nestes momentos de tragédias, de falta de segurança ao cidadão, temos que buscar meios eficazes de segurança, não impedindo a circulação de pessoas. Temos que parar de tapar o sol com a peneira, deixar de vender ilusões.
Com políticas ousadas de desenvolvimento sustentável, com integração social e com combate sem fronteiras aos ilícitos, nossa vida será melhor e mais segura.
Revisão e edição: Renata Appel
Professor e Vereador em Porto Alegre.
e-mail do autor:
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