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Comentarista: José Arthur Assunção
O preço do dólar não é o problema

O grande problema do câmbio flutuante é que o danado flutua. Quando o ex-ministro da Fazenda, Antônio Palocci, pronunciou essas palavras o fez, é claro, com certa dose de ironia. Mas deu um recado muito importante: a flutuação cambial seria preservada a todo custo. À primeira vista, essa declaração de Palocci, feita há uns 2 anos, parece meio óbvia demais. Mas não é! O Brasil conviveu anos e anos com o câmbio controlado, seja pela mão-de-ferro do governo, como faz a China até hoje, seja num sistema de bandas e minibandas, defendida com unhas e dentes pelo ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco. Mas que deu no que deu no início de 1999. Era insustentável. No entanto, ajudou a reeleger o então presidente Fernando Henrique Cardoso. Mas isso é conversa para outro dia.

Vamos nos concentrar no problema atual do câmbio. Eu disse problema? É o que parece, mas realmente não tem problema algum. O valor da moeda americana flutua de acordo com a saúde da economia da terra do Tio Sam, que, apesar de sua pujança, não vai muito bem das pernas. Vale lembrar que a desvalorização do dólar não está acontecendo só aqui no Brasil. É um fenômeno mundial. E também flutua de acordo com o grau de credibilidade do país em questão. O Brasil, por exemplo, vive, na macroeconomia, uma conjunção de fatores tão positivos, que nada estanca a enxurrada de dólares que entra por aqui. E então é a famosa lei da oferta e da procura. Quanto mais dólar, menor o seu valor. Óbvio!

Mas assistimos ao Banco Central fazendo de tudo nas últimas semanas para não deixar o câmbio cair abaixo do patamar psicológico de R$ 2. Só que não teve jeito. Caiu. Pode até voltar a subir acima dos R$ 2, mas depois cair novamente, e assim por diante. Lembremos mais uma vez: o câmbio flutuante flutua mesmo. Somos muito inventivos. O BC tentou dar o famoso jeitinho brasileiro usando uma estratégia que podemos definir como “câmbio flutuante administrado”. Mas se gastaram muitos reais para isso. É claro que elevamos nossas reservas e isso é bom. Entretanto, é discutível carregar reservas a um custo tão alto. Outra conversa para depois.

Pois bem, além de defender uma hipotética banda de R$ 2 – ainda bem que o BC já desistiu disso, o governo fez das suas. Para dar uma ajudinha aos setores mais prejudicados com a queda livre do dólar, aumentou alíquotas de importação, cogitou liberar linhas de crédito especiais e também deverá reduzir impostos para as empresas que perderam competitividade. Mas essa queda de receita, é claro, vai cair no colo de toda a sociedade. O governo não vai perder receita. Precisa fazer superávit a qualquer custo.

Nossa balança comercial não pára de bater recordes. Isso é muito bom. Mas já está na hora de incentivarmos as importações para exportarmos produtos com maior valor agregado. Ou seja, a palavra importação, que sempre pareceu um palavrão, deve passar a ser vista sob um novo ângulo. Não há nada a perder. Só a ganhar. No entanto, é difícil mudar uma política que vem de muitos anos. O próprio presidente Lula disse, dias atrás, que toda e qualquer mudança é difícil para o ser humano. Ele voltou a fazer uso de suas metáforas. Mas, dessa vez, falou algo muito sério. Existe um medo de liberarmos ainda mais a economia.

Lula tem a grande chance de entrar para a história ao comandar uma revolução liberal neste país. Seria até engraçado por toda a história do ex-operário. No entanto, mais do que ser engraçado, seria corajoso, valoroso, importantíssimo para o crescimento sustentável do Brasil, quem sabe em níveis chineses. Receita de bolo não existe. Mas já seria um grande avanço se o BC desistisse de onerar as importações e, pelo contrário, as desonerasse cada vez mais para abrir fortemente o comércio exterior do país. Desse modo, aumentariam as importações, o que sinalizaria para o mercado que a tendência do dólar não é continuar caindo.

Tendo maior acesso a bens de capital, o parque industrial brasileiro modernizar-se-ia e equipar-se-ia para exportar, no futuro, produtos com maior valor agregado. Nesse mundo globalizado, só vão permanecer vivas as empresas que tiverem gestão moderna, de excelência. Dólar caro ou barato nunca pode ser problema. É apenas conjuntura de momento. Ou temos um câmbio flutuante ou não temos. E já vimos que os outros métodos não são bons o bastante.

Quanto à concorrência desleal dos produtos chineses, por exemplo, que têm preços muito baixos, devido à mão-de-obra tão barata por lá, precisamos fazer a reforma trabalhista que dê competitividade às nossas empresas. Vai ser bom para todos. Serão abertas mais vagas de trabalho. E, seguindo nesse ritmo, a já tão propalada reforma fiscal, para reduzir o custo de nossas empresas. Eu sei que o Brasil precisa fazer superávit. Mas será que uma queda nos impostos não poderá armar um círculo virtuoso, que produza crescimento mais pujante e eleve a arrecadação? Pode ser que, em alguns anos, nem sejam mais preciso superávits tão altos. Mas, por hora, não vou pedir tanto. Só espero que o BC não tente, em vão, segurar novamente a queda do dólar e que o Planalto deixe seus preconceitos de lado e incentive as importações.

Revisão e edição: Renata Appel


Presidente do Sindicato das Financeiras dos estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, Vice-Presidente da Federação Nacional das Empresas de Crédito, Financiamento e Investimento (Fenacrefi) e Diretor da ASB Financeira  
e-mail do autor: jala@asb.com.br
 
 

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