Microcrédito no Brasil precisa sair do papel
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O Brasil tem que crescer mais, bem mais do que nos últimos anos. E essa precisa ser a prioridade do presidente Lula no seu 2º mandato. Como grande parte dos brasileiros, também tenho uma sugestão a dar ao presidente nessa empreitada essencial para todos nós. Os economistas sabem da importância do crédito como ferramenta para alavancar a economia. Infelizmente, no nosso país, este setor vem se comportando de forma tímida ainda, devido a tantos entraves. Porém, há uma modalidade de crédito que resulta comprovadamente em crescimento econômico: o microcrédito. Para que o Brasil cresça realmente de modo sustentável, é necessário que o programa de microcrédito já existente seja melhorado e realmente colocado em prática.
Até agora, no Brasil, o programa de microcrédito é uma colcha de retalhos, muito diferente das experiências que vêm dando tão certo pelo mundo e que até levou Muhammad Yunus, responsável pela introdução do microcrédito em Bangladesh, a ganhar o prêmio Nobel da paz este ano. Primeiramente, é preciso entender o que é e como funciona o microcrédito nos países onde deu certo efetivamente. Ao se explicar os mecanismos reais de funcionamento dessa modalidade de crédito, com certeza, governo, iniciativa privada e sociedade civil irão aclamá-lo e trabalhar por sua real implementação.
O que no nosso país se costumou chamar de microcrédito nada mais é do que um empréstimo de baixo valor, que deveria ser chamado de microempréstimo. Microcrédito não se usa para comprar um bem nem para pagar dívidas. Microcrédito se usa para constituir algum tipo de negócio, mesmo que seja bem pequenino. É um crédito que gera renda e emprego. O microcrédito verdadeiro é aquele que é acompanhado no seu dia a dia. Não basta a instituição conceder o crédito. É preciso que o tomador do dinheiro esteja preparado para utilizá-lo e que a instituição esteja presente, sempre que houver necessidade, para que o dinheiro seja usado de maneira correta.
O microcrédito, num 1º momento, é aberto para comunidades, o que facilita as visitações dos agentes das instituições financeiras – o acompanhamento familiar é imprescindível – e também a participação integrada dos membros. O crédito pode ser concedido para uma única pessoa ou mesmo para um grupo, gerando maior solidariedade entre os membros. Se um não pagar, os outros rateiam. Há um comprometimento social, o que resulta numa inadimplência muito pequena.
Mas é preciso haver vontade política por parte do Governo para que o micrócredito vá avante. É bom para todos. Financia a geração de renda, gera riqueza, reduz a informalidade e aumenta a arrecadação. Além disso, é preciso que o microcrédito seja uma atividade fundamentalmente com fins lucrativos. Entidades filantrópicas podem ter a melhor das intenções, mas o microcrédito só vai adiante com profissionalismo. O programa também não pode ser desenvolvido por organismos que sofram ingerência política. Sabemos que não dá resultado. As experiências por todo o mundo provam isso.
No Brasil, apenas 25% da população, em média, tem relacionamento com bancos; isto quer dizer que o restante, cerca de 75%, fica totalmente à margem do crédito, por não preencher às exigências impostas. Pois bem, são essas pessoas o público-alvo do microcrédito, que criará condições para que elas desenvolvam suas potencialidades. Basta ter uma profissão ou uma boa idéia. Para o mecânico, por exemplo, são financiadas as ferramentas; para a dona de casa que faz congelados, é financiado um freezer; e assim por diante. Os juros são baixos, se comparados aos de outras modalidades de crédito, com prazos de pagamento compatíveis com o bom andamento do projeto, além do acompanhamento técnico periódico.
Por tudo isso, as financeiras, pela característica de estarem tão próximas do povo e por apresentarem uma rede de distribuição extremamente capilarizada por todo o território nacional, são as instituições mais apropriadas para formar parceria com o governo nessa empreitada. Só assim o microcrédito será feito em larga escala e irá se constituir numa importante ferramenta para o desenvolvimento sustentável do Brasil.
Revisão e edição: Renata Appel
Presidente do Sindicato das Financeiras dos estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, Vice-Presidente da Federação Nacional das Empresas de Crédito, Financiamento e Investimento (Fenacrefi) e Diretor da ASB Financeira
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